Leite de morte, leite de vida

Leite de morte, leite de vida

por Fabián Mauricio Martínez G Colômbia

Na Colômbia, a pandemia dificulta o aleitamento materno e separa recém-nascidos de suas mães. De outro lado, abre caminho a estratégias de promoção de fórmulas infantis. Rappi e Mead Johnson dão as mãos em um combo que ignora as recomendações médicas, as leis e as realidades locais

Publicado em 8 setembro 2020

Alguns dias após o nascimento, os exames de Covid-19 deram positivo para a mãe e a criança. O bebê nasceu às 10h27 do dia 14 de julho de 2020 no Hospital San José, no centro de Bogotá. Pesou 2.830 gramas e mediu 50 centímetros. Seus gritos, como anunciando ao planeta que tinha acabado de chegar, foram ouvidos na sala de parto antes que seus batimentos cardíacos, respiração e reflexos fossem medidos. Antes de cortarem seu cordão umbilical e que os braços se dobrassem sobre o peito. Cor da pele e tônus muscular mostraram que o bebê estava bem de saúde. No entanto, ele tinha Covid-19.

A mãe do bebê não apresentou nenhum sintoma (febre, tosse seca, cansaço, dor de cabeça), mas, pelo protocolo de saúde colombiano, ela e o filho foram testados. Ambos positivos, embora a mãe — 17 anos, magra, cabelo preto — não tivesse saído de casa nos últimos meses. A garota, que vamos chamar de Johana, manteve uma quarentena rigorosa, preocupada com sua gravidez. Mas o pai do garoto — 19 anos, alto, moreno — teve que sair de casa para percorrer a cidade vendendo sacos de lixo, flores, frutas ou o que quer que estivesse à mão. A situação de John Freddy não é única.

Na Colômbia, embora cerca de 11.000 casos positivos de coronavírus estejam sendo relatados diariamente, para centenas de cidadãos não é possível ficar em casa. Seus trabalhos são informais e devem ser feitos na rua, andando pela cidade, empurrando carrinhos com abacates, mangas ou bananas. Cerca de 15.000 pessoas já morreram no país por causa da pandemia. E só em Bogotá, os infectados estão se aproximando de 160.000. Este paradoxo é muito bem definido por John Freddy, o pai do bebê: “Ou o vírus nos mata ou morremos de fome, mas não podemos ficar em casa com os braços cruzados.” 

O bebê está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), isolado da mãe. Johana, assintomática, espera em casa. Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomende que a mãe e a criança não sejam separadas, mesmo que ambos tenham Covid-19, esse isolamento é feito para garantir a saúde do bebê. Segundo o neonatologista Carlos Alberto Acosta, “sendo menor que 6 meses há um alto risco de deterioração clínica, para este caso de ordem respiratória por Covid. Então, não há outra maneira, a criança deve ser observada”. Além disso, deve-se ressaltar que o isolamento também é feito para quebrar a cadeia de contágio e exercer maior controle epidemiológico.  

Johana, a mãe, espera confinada por 14 dias antes de receber um novo teste. A equipe do hospital a visita para coletar o leite — que ela extrai — e levá-la à clínica onde está o bebê. Eles armazenam no banco de leite e a cada três horas tiram um pouco para alimentar a criança. “Pensei que tínhamos que comprar leite artificial por causa do vírus, mas os médicos insistiram que eu lhe desse leite materno.” 


Adobe Stock

Coberto com uma roupa que lembra astronautas em missões espaciais, o neonatólogo Acosta examina o bebê três vezes ao dia. Cuida dele na Fundação Cardiovascular de Soacha, para onde a criança foi transferida por falta de vagas na UTI do Hospital São José. Verifica sinais respiratórios e cardíacos; mede a temperatura e liga para a jovem mãe para dizer como a luta de seu filho pequeno está indo contra o vírus que tem o mundo nas mãos. Até agora, a criança está ganhando. 

“A melhor coisa para o bebê é o leite materno”, diz Acosta. “Não há nada melhor para esta criança do que o leite de sua mãe”, ele continua, através de seu escafrandro, que também lembra a proteção que os bombeiros usavam em Chernobyl, após a explosão nuclear em 1986. De acordo com a Pesquisa Nacional de Situação Nutricional, o aleitamento materno exclusivo em bebês menores de seis meses de idade diminuiu para 36,1%, contra 42,8% em 2010. E de acordo com a página de Aleitamento Materno e Nutricional do Ministério da Saúde, “de cada 100 crianças nascidas na Colômbia, apenas 56 começam a amamentar na primeira hora de nascimento”.

O médico explica que os recém-nascidos têm um sistema imunológico fraco e a melhor substância para elevar a imunidade é o leite materno. “Mesmo que a mamãe tenha coronavírus?”, eu pergunto. “Não importa”, ele responde, “a única contraindicação ao leite materno é o HIV ou que a mãe decida não amamentar. Não há nada que beneficie seu bebê mais do que o leite materno porque fortalece seu sistema imunológico e é precisamente isso que você precisa para vencer o vírus.”

Em um relatório de 27 de maio de 2020, a OMS e a Unicef enfatizam que as mulheres devem continuar amamentando durante a pandemia, mesmo que tenham a suspeita ou confirmação de que estão infectadas. Os dados atuais, diz o relatório, indicam que é improvável que a Covid-19 possa ser transmitida através da amamentação ou do leite materno extraído de uma mulher com vírus. Os muitos benefícios do aleitamento materno superam em muito os riscos potenciais. Mas essa verdade anunciada por organizações internacionais é inquietante para empresas que se esforçam para promover leites de fórmula como alimento ideal para recém-nascidos.

María Eugenia Delgado, nutricionista e consultora internacional de aleitamento materno, tem travado uma luta contra as imposições, às quais seus pacientes são frequentemente submetidos, pela promoção publicitária de leites de fórmula. “O leite materno é um fluido vivo cujas células fornecem os macronutrientes necessários para o bebê, e eles também lhe dão a carga imunológica que os leites de jarra não têm”, diz a especialista – cabelo castanho e sorriso largo – e continua: “O fato de o leite materno estar vivo significa que ele tem células dinâmicas e mutáveis, ou seja, tem a capacidade de criar uma relação única e próxima com o bebê que está se alimentando.” 

No entanto, a consultora reconhece que, em alguns casos, o aleitamento materno é contraindicado. “Em nosso país, se a mãe for HIV positivo, a Empresa Promotora de Saúde deve fornecer a fórmula para o bebê. Ou se a mãe está em processo de quimioterapia, o leite materno não deve ser dado.” Por sua vez, ela explica que em certos casos médicos, atípicos e de baixa prevalência na população, o bebê nasce com erros inatos do metabolismo, como galactosemia e fenilcetonúria. “No caso do primeiro acontece que o bebê não tolera galactose, um monossacarídeo de leite materno, ou seja, seu corpo não tem enzima para metabolizá-lo e começa a ocorrer um acúmulo que pode causar insuficiência hepática ou alterações neurológicas. Nestes casos, nenhum leite materno pode ser dado.” 

Adobe Stock

Negócio disfarçado

Federico García Lorca escreveu Yerma em 1934. Uma obra teatral de ambiente rural que expressa, em vários de seus diálogos, a poesia da sabedoria popular. No Ato III, a protagonista diz: “Imagino que as recém-paridas estão como iluminadas por dentro – e as crianças dormem horas e horas em cima delas ouvindo esse arroio de leite morno que lhes vai enchendo os peitos, para que mamem, para que brinquem, até não quererem mais.”

Quase cem anos depois, a cena mágica de García Lorca sobrevive, e a ciência soma certezas. 

Tedros Adhanom, diretor da OMS, disse que: “O aleitamento materno oferece aos bebês o melhor começo possível na vida porque o leite materno atua como a primeira vacina do bebê, já que protege contra doenças potencialmente fatais e oferece todo o alimento de que precisam para prosperar.” E essa potente vacina natural, um arroio de leite morno, mantém com vida o bebê de Johana e John Freddy. 

É por isso que é difícil aceitar que, neste momento de pandemia, as marcas promovam doações disfarçadas de filantropia, a fim de se favorecer economicamente em meio à emergência sanitária global. Essa situação foi denunciada pela Red PaPaz, uma organização sem fins lucrativos composta por pais colombianos que zelam pelo bem-estar integral das crianças. 

Imagino que as recém-paridas estão como iluminadas por dentro - e as crianças dormem horas e horas em cima delas ouvindo esse arroio de leite morno que lhes vai enchendo os peitos, para que mamem, para que brinquem, até não quererem mais.”

 

Em carta enviada ao Instituto Nacional de Vigilância de Medicamentos e Alimentos da Colômbia), a Red PaPaz denunciou uma promoção lançada pela Rappi Colombia, chamada “Sementes de Apego”, para apoiar um programa de mesmo nome da United Way Foundation. De acordo com a promoção, a corporação das entregas prometeu doar uma lata de 180g de Premium Enfagrow para a United Way Foundation para cada ordem completa dos produtos Enfagrow da Mead Johnson. As doações foram para as crianças mais vulneráveis do município de Tumaco, Nariño, no sul do país.  

Os produtos Enfagrow Premium, explica a carta enviada pela Red PaPaz, são fórmulas para crianças menores de dois anos, feitas a partir de leite de vaca integral com a adição de nutrientes declarados em seu rótulo nutricional. Por se tratar de um produto processado de origem animal com a adição de nutrientes, corresponde à definição de “alimento de fórmula para bebês”, segundo o artigo 2º do Decreto 1.397, de 1992. Um tipo de produto para o qual não pode haver publicidade por meio de doação; atividades de publicidade e promoção em nível público em geral; e entrega de amostras grátis às mães.

A proibição da lei colombiana é muito clara. E, apesar da clareza na denúncia, a resposta do órgão público “parece ser redigida pela Enfragrow”, diz Carolina Piñeros, representante legal da Red PaPaz. A posição oficial, assinada por Carlos Robles Cocuyame, diretor de Alimentos e Bebidas da INVIMA, conclui que: “O produto não corresponde a uma fórmula infantil ou a um alimento complementar do aleitamento materno” e que “A atividade realizada na plataforma não corresponde a um anúncio, mas a uma atividade promocional”. 

Para além das formas e da discussão sobre publicidade, o caso se agrava ao conhecer o contexto da população de Tumaco. 

Leite de morte, leite de vida

Lorena Muñoz, nutricionista, membro do Observatório de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional da Universidade Nacional da Colômbia, conhece bem a situação de Tumaco porque trabalhou lá em 2019 na recuperação da memória alimentar do território. 

“A primeira coisa que devo salientar é que essas fórmulas, como as da promoção da Rappi Colômbia e da United Way, exigem água potável para preparação, bem como para esterilização das mamadeiras em que é dada”, diz Muñoz. 

Em Tumaco, segundo dados divulgados pelo censo de 2018, a cobertura de aquedutos atinge apenas 31,7% da população, e apenas 5,5% da população possui sistema de esgoto. Isso significa que naquela cidade, habitada por 212 mil pessoas, apenas 11 mil possuem serviços de coleta e transporte de águas residuais. “Isso torna a doença diarreica aguda muito alta, assim como a infecção respiratória aguda. Ambas as doenças são as principais causas de morte em crianças menores de 5 anos em Tumaco.” 

Se há sérios problemas de água potável, por que oferecer doações de leite artificial quando não há sequer garantia de acesso à água para prepará-los? “Se realmente quiséssemos ajudar, uma boa dieta para as mães teria que ser promovida”, reflete Muñoz, que conclui, “o que realmente está sendo feito através dessas doações é a ação política corporativa a fim de promover interesses econômicos corporativos no direito das crianças ao aleitamento materno e à alimentação adequada das crianças”.  

Tumaco | Foto: Adobe Stock y Colombia Reports

Jennifer Preciado tem 28 anos, é líder social e gerente em segurança alimentar e nutricional em Tumaco. Ela mora no Barrio Obrero, um subúrbio com sujeira e ruas de paralelepípedos, onde as crianças se divertem correndo com cães magros. Jennifer – pele castanha e cabelo preto – está grávida pela terceira vez, uma menina que nascerá em agosto. Seu primeiro filho tem onze anos e o segundo, cinco. “O primeiro eu dei leite materno até os dois anos de idade. O segundo, por razões de trabalho, eu não pude amamentá-lo. Tive que dar fórmula. Eu tive que ir trabalhar e fiquei longe de casa por vários dias.”

Deitado em uma cadeira, usa o leque para espantar o calor das três da tarde com a mão direita; com a esquerda, segura o celular. “Aqui não temos água potável. Você abre a torneira e a água desce turva, às vezes com cheiros. Temos que ferver. Com meu segundo filho eu tinha que fazer isso o tempo todo.” Preciosamente conta que seu segundo filho – aquele que tomou fórmula – ficou constipado, sofreu com febres e cólicas durante os primeiros meses de vida, o que não aconteceu com seu primeiro, a quem amamentou. “Meu primogênito está em ótima saúde, mas meu segundo filho adoece muitas vezes.”

A revista britânica The Lancet, uma das mais prestigiadas do mundo, em sua edição de fevereiro de 2016, sobre aleitamento materno, oferece um estudo abrangente sobre os benefícios. Diz, entre outras coisas: “Crianças amamentadas por períodos mais longos têm menor morbidade e mortalidade infecciosa (…) e inteligência superior às que são amamentadas por períodos mais curtos ou não são amamentadas. Essa desigualdade persiste ao longo da vida. Há evidências crescentes de que o aleitamento materno pode proteger contra o excesso de peso e diabetes no futuro.” Benefícios e desvantagens que se tornam evidentes nos filhos de Jennifer Preciado.

É por isso que ela tem muito claro que sua filha será amamentada exclusivamente por pelo menos seis meses. É uma escolha que ela faz a partir de seu conhecimento como gerente em segurança alimentar e nutricional, mas também usando o conhecimento ancestral da área. “Veja, aqui em Tumaco a melhor dieta que uma mãe pode fazer para produzir um bom leite é tomar como base a água de panela [uma infusão]. Você tem que tomar várias vezes por dia, almoçar com um bom frango e jantar com peixe fresco, além de comer boas frutas e legumes durante o dia”, diz a mulher, com dentes brancos e alegria transbordante. 

Mas nem todas as mulheres têm a mesma disposição da Jennifer. Além das contraindicações médicas descritas, há outro fator que afeta o aleitamento materno. Lorena Muñoz, nutricionista, explica assim: “O desejo de amamentar é algo a se considerar. Nem todas as mulheres querem fazer isso e é respeitável. Há mulheres que simplesmente não estão interessadas em amamentar seus filhos. Nesse caso, devemos encontrar a fórmula que melhor se adapte ao bebê e respeite a retirada da mãe. No entanto, não é muito comum. O aleitamento materno hoje é uma tendência na maioria das mulheres.” 

Na costa do Pacífico da Colômbia, Jennifer planeja um futuro de peito e saúde para sua filha. Em Bogotá, o bebê de Johana e John Freddy já venceu a Covid-19 após 14 dias de uma odisseia para garantir a amamentação. O bebê nascido em 14 de julho agora conhece sua mãe. Crescendo e colado no peito. 

 

Um presente envenenado

Um presente envenenado

por Milo Milfort Haiti
Publicado em 7 setembro 2020

Se tivéssemos de escolher um único exemplo de por que as doações são um bom negócio apenas para as corporações e as ONGs que as representam, esse exemplo seria o Haiti. Quando os haitianos ainda removiam escombros, buscando centenas de milhares de mortos depois do terremoto de 2010, a multinacional Monsanto tentava entrar no país com 475 toneladas de sementes transgênicas disfarçadas de doação. Deparou-se com um país faminto, mas um campesinato que leva a resistência no sangue e que jamais se colocaria de joelhos

Janeiro de 2010. Um poderoso terremoto de magnitude 7,3 na escala Richter golpeia severamente o Haiti. Mais de 200 mil pessoas morrem e 1,5 milhão ficam desalojadas. Centenas de milhares de construções vão abaixo em 35 segundos. Há danos severos, sobretudo no Oeste, na zona da capital Porto Príncipe, onde vive um terço da população.

A essa catástrofe se seguiu outra: a investida de centenas de organizações não governamentais (ONGs), organismos humanitários e multinacionais. Estima-se que foram quase 10 mil organizações, que durante algum tempo substituíram o Estado, preso sob os escombros. A ajuda internacional se canalizou por essas organizações, criando atritos entre o poder público e as comunidades. 

Quando começaram a se esgotar os fundos e a ajuda internacional, em 2013 e 2014, as ONG e os organismos humanitários começaram a deixar o país. Não deixaram nada duradouro. Problemas e dificuldades persistem. Um fracasso registrado no documentário Assistance Mortelle, do cineasta hatiaiano Raoul Peck.

Nesse contexto, na primavera de 2010, através de um projeto da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), a companhia agroalimentar Monsanto fez uma doação de 475 toneladas de sementes de milho e legumes sob o argumento de “apoiar o esforço de reconstrução”. 

As sementes da corporação, principal produtora de transgênicos e uma das maiores de pesticidas, chegaram à ilha e não foram bem recebidas. Os camponeses haitianos, ainda em meio ao colapso, recusaram a “doação”. 

Mas o projeto Watershed Initiative for National Natural Environmental Resources (Winner, ou vencedor, em inglês) continuou. Com um plano de cinco anos e 126 milhões de dólares, dizia buscar “reduzir a pobreza mediante o crescimento agrícola”. Foi dirigido pela Chemonics International, um gigante que executa os planos da Usaid, com mais de 5.000 empregados em cem países. Como gerente, um homem conhecido no país: Jean Robert Estimé, antigo ministro de Relações Exteriores da ditadura de Jean-Claude Duvalier, que, além de tudo, já havia trabalhado para a corporação na África. 

Com alarde, o Winner prometia melhorar as condições de vida das populações e investir no crescimento econômico, regalando fertilizantes e sementes de milho amarelo, além de sorgo, arroz, melão, espinafre, brócolis, berinjela, cebola, melancia para cobrir milhares de hectares. O programa foi executado entre 2010 e 2015. Segundo os informes da própria ONG, ajudou “1.500 camponeses” com “técnicas inovadoras”. O balanço oficial da Usaid diz que “os agricultores haitianos experimentaram aumentos dramáticos na produtividade dos cultivos este ano graças a seu programa inovador dirigido pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional”, ou seja, por eles mesmos. 

O certo é que o Winner nunca prestou contas de forma transparente, nem concedeu nenhuma entrevista à imprensa. Porém, o programa serviu para a entrada – a conta-gotas, mas entrada – das sementes que os camponeses não queriam. O projeto garante que eram “híbridas”, mas muitos temem que tenham sido sementes geneticamente modificadas. Um combo que não conseguiu alterar os índices de segurança alimentar, que, inclusive, estão piores. 

O Haiti já foi outro país

O Haiti é hoje o país mais pobre das Américas, mas também foi a primeira república negra livre e independente do continente. Um país que se rebelou ao colonialismo francês até colocá-lo de joelhos, em 1803. Um país que sofreu uma longa lista de terremotos, furacões e grandes incêndios. 

A ilha foi povoada por negros trazidos em barcos. Aqueles que conseguiram resistir à opressão usando as línguas creole e vudu. Em 1915, souberam resistir à ocupação pelos Estados Unidos. E um grupo valioso repetiu o feito em 2010, quando a Monsanto prometeu o paraíso. Os haitianos resistem desde sempre, e por vezes triunfam. Um exemplo é o beisebol: apesar das muitas tentativas, nunca conseguiram fazer com que a população simpatize com esse esporte. Parece um detalhe, mas é uma marca de resistência. 

O Haiti é, também, um país que arrasta mais de 30 anos em crise social, política e econômica. Devastado pela pobreza: 8 de cada 10 habitantes não podem satisfazer suas necessidades básicas, têm a renda per capita mais baixa de todo o Ocidente e ocupam os piores postos mundiais quanto ao Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (145 de 177). Assolado também pela corrupção, na 168ª posição entre 180 países analisados pela Transparência Internacional em 2019. A inflação ficou em 23,4% apenas em maio de 2020. Somam-se a tudo isso instabilidade política, manifestações violentas, guerras de grupos armados, golpes de Estado e uma lista de dramas sem fim. 

Os governos das últimas três décadas não conseguiram levar o país ao tão sonhado desenvolvimento – ou nem tentaram – e a comunidade internacional assistiu muda aos acontecimentos ou foi partícipe deles. Muitas vezes, os governos de outros países facilitaram a tomada do poder, interferiram de forma recorrente e estimularam a precariedade política.

O Haiti é hoje um país no qual a miséria aumenta a cada dia. O desespero se vê nos rostos. A comida se converte em luxo. E os jovens se vão, em massa, a outros lugares – entre 10% e 12% vivem fora do país. É, também, um país no qual os agricultores estão vendendo sua porção de terra para comprar uma passagem para trabalhar na terra em outros países da América Latina. 

Mas, até há não muito tempo, era um outro país. Alimentos como o tamarindo e a “árvore verdadeira”, que dá a fruta-pão, boa para sucos ou para comer cozida, eram usados para alimentar animais, como os porcos. Os camponeses produziam em quantidade e a fome não os incomodava. 

“Costumávamos cultivar milho e algodão. Vendemos algodão a grandes comerciantes. Isso nos fez ganhar dinheiro”, recorda Franck Chérilus, de 68 anos, pai de 5 filhos. “Eu não sabia comercializar. Comprei grãos, moí e vendi. Foi uma realidade que não durou muito com (François) Duvalier. Com o canal de irrigação que instalou, as plantas começaram a desaparecer.”

Chérilus tem o cabelo grisalho. Veste uma camiseta azul e calça jeans. Em Molette, uma localidade a 88 quilômetros da capital, onde ainda trabalha a terra, recorda dos alimentos que já não existem. Fala da pita, que o Haiti exportava em grandes quantidades. Das enormes plantações de cana-de-açúcar. Dos tomates para as fábricas que desapareceram. 

Nas ruas, os haitianos consumiam alimentos feitos com itens locais, como o Acasan, um purê de milho, e a Cassave, um pão de mandioca, entre muitas outras preparações de milho, milho miúdo e tubérculos. Os hábitos alimentares começaram a mudar há três décadas, com a introdução do frango e das bebidas açucaradas. As pessoas costumavam tomar suco de frutas locais e comer frangos criados aqui, mas faz pelo menos três décadas que passaram a comprar ultraprocessados importados e frangos industriais criados na República Dominicana.

Tudo começou a mudar nos anos 1980. Políticas de ajuste estrutural, diminuição de tarifas de importação e falta de investimento na agricultura local foram os principais fatores de desmoronamento. O Haiti deixou de ter porcos convencionais porque deixaram de ser criados sob o pretexto de que tinham doenças. Foi uma estratégia para introduzir porcos trazidos dos Estados Unidos. Também se trouxe o arroz, que antes era comido em apenas algumas ocasiões. E, agora, todos os grãos que chegam ao prato são importados. Arroz, milho ou feijões, como parte de um gosto criado. 

O suíço Jean Ziegler, primeiro relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação (2000-2008), lista no livro Destruição em massa vários e vários casos nos quais a imposição de um mercado global de alimentos teve efeitos devastadores em pequenos países. 

O Haiti passou por planos de ajuste do Fundo Monetário Internacional (FMI) que o obrigaram a praticamente zerar as tarifas de importação. “Entre 1985 e 2004, as importações haitianas de arroz — essencialmente norte-americano, cuja produção é largamente subsidiada pelo governo — saltaram de quinze mil para 350 mil toneladas por ano. Simultaneamente, a produção local de arroz desabou: caiu de 124 mil para 73 mil toneladas. Desde inícios dos anos 2000, o governo haitiano teve de gastar um pouco mais de 80% de seus escassos recursos para pagar suas importações de alimentos. E a destruição da rizicultura provocou um êxodo rural em massa.” 

Franck Chérilus diz que antes “não tínhamos problemas para comer. Sabíamos como criar gado. Não havia carne importada. Depois da colheita, soltávamos vacas nos jardins e sabíamos tirar leite. Nos domingos, comíamos frango caipira. Mas a agricultura perdeu importância para os chefes de Estado, que veem nossa salvação nas importações: no lugar de fomentar o cultivo de arroz, preferem abrir o ventre do país para aceitar o arroz importado”.

Port-au-Prince. Foto: Marco Dormino / ONU

Um presente envenenado

É meio-dia. Depois de viajar três horas em automóvel e uns quinze minutos em moto, estamos em Papaye, uma área da cidade de Hinche, no Platô Central. Nessa região, o desmatamento é duro, a seca é selvagem, as estradas estão em mal estado e a agricultura definha. Nos últimos dois anos, as plantações têm sido devastadas por colônias de lagartas. Os camponeses se queixam e denunciam que as autoridades não fazem nada para conter o fenómeno. 

Papaye é um lugar calmo, no qual tudo funciona como se não existisse uma pandemia. As pessoas, inclusive, acreditam que a Covid-19 nunca chegará. Não se respeita o uso obrigatório de máscaras, nem o distanciamento, nem as restrições de funcionamento. 

Além de haver sido uma região fundamental na resistência à ocupação estadunidense, em anos mais recentes essa área se tornou sede de uma influente organização camponesa, o Mouvement Paysan Papaye (MPP), grupo que tem como objetivo unir todos os trabalhadores rurais haitianos e, sobretudo, os jovens. 

Chavannes Jean Baptiste, coordenador do MPP, veste una camisa de estilo camponês e nos recebe perto de sua casa, numa granja que tem uma área de treinamento para os membros do movimento e dormitórios. O líder fala entre as árvores, tendo ao fundo o som de pássaros cantando. São pássaros locais, o ar é frio, o lugar é muito agradável. 

Passados dez anos da chegada da Monsanto, Baptiste recorda o que aconteceu. Conta que conseguiu um saco de fertilizantes em Croix-Des-Bouquets para ter provas, para saber com certeza que doariam. 

“Era um complô mundial. Era um sinal de solidariedade e uma maneira de criar empregos, mas, enquanto alguns foram golpeados pela catástrofe, outros viram uma oportunidade para mover suas próprias peças. Foi o caso da Monsanto, uma multinacional do agronegócio que domina o mundo, sobretudo com suas produções de sementes híbridas ou geneticamente modificadas e herbicidas extremamente perigosos.”

Em 4 de junho de 2010, 20 mil pessoas de todo o país se reuniram em Papaye. Marcharam até a praça principal, que se chama Charlemagne Péralte em homenagem a um revolucionário que combateu contra a ocupação dos Estados Unidos. “Nos manifestamos contra um presente envenenado. Era uma mobilização enorme. Era um êxito louco. Ao final da marcha, queimamos sementes da Monsanto.”

Ele relata que havia certeza de que as sementes modificariam a agricultura local. “Quisemos mostrar ao mundo inteiro que, mesmo que tenhamos sido vítimas de um terremoto devastador, não aceitamos que multinacionais venenosas se aproveitem de nossa desgraça para afundar-nos ainda mais. Se querem nos ajudar, não precisamos desse tipo de ajuda.”

Era uma atmosfera festiva, de carnaval, ao ritmo de bandas de rara, que são grupos tradicionais compostos por tambores, trombetas feitas de cana e instrumentos nativos. Apesar do sol, do calor, as pessoas dançavam. Lançavam gritos de guerra hostis à Monsanto e ao governo. Os camponeses estavam muito irritados com a multinacional, e exigiam que as autoridades freassem a distribuição de sementes. Carregavam cartazes, placas e retórica anti-Monsanto. 

A briga não acabou por aí. O MPP levou o caso a organismos internacionais. Baptiste viajou aos Estados Unidos, onde apresentaram uma ação contra a Monsanto ante o Departamento de Agricultura, o Congresso e a Organização das Nações Unidas. 

A “doação” da Monsanto abriu um debate no Haiti. Numerosas discussões se deram em torno da verdadeira intenção com as sementes. Em entrevista a Bocado, Joanas Gué, ex-ministro da Agricultura durante o governo de René Preval (2006-2011), pondera que “o setor camponês tem razão em ter inquietudes. Por quê? Porque no sistema de produção que temos no Haiti haverá problemas. No caso do milho, que é uma planta de polinização cruzada, haverá problemas se introduzimos uma semente da qual o camponês não pode ter controle”.

Além disso, “ao entrar nessa dinâmica [da Monsanto], terão que comprar sementes a cada ano das grandes filiais das multinacionais. Sementes híbridas e transgênicas”. Passada uma década, o debate persiste. As autoridades haitianas e a Usaid insistem que se trata de sementes híbridas – cruzamentos naturais selecionados em laboratório –, enquanto os críticos insistem que são transgênicas. No meio do caminho, uma parte da população segue confundindo os dois conceitos. 

 

País de camponeses

Justimé Octave tem 50 anos e é pai de 8 filhos. Ele mora em Bassin Zim, no Departamento do Centro, na cidade de Terrier, perto de uma cachoeira muito visitada nas férias. Ele parece mais velho que sua idade, mas transmite a energia de um jovem. Claramente, tem um bom relacionamento com pessoas da comunidade. Ele é um membro fervoroso do MPP e um camponês que está envolvido na agricultura desde a infância.  

Já são 38 anos semeando, cuidando, colhendo. Ele conhece a agricultura e, pelo seu conhecimento, nos diz: “A semente híbrida, quando cultivada, produzirá rendimento, mas não pode ser reutilizada. Então, você sempre será obrigado a comprar indefinidamente. A semente coletada pode ser reutilizada, comida ou vendida.” 

Essas são as razões pelas quais se juntou aos protestos e à resistência contra a famosa “doação”: “Pudemos ver que perderíamos toda a nossa produção nacional. Estávamos dizendo um ao outro que se deixássemos a Monsanto entrar em nosso país, estaríamos na merda. Nossa miséria cresceria. É por isso que protestamos contra eles.”

O Haiti é considerado um país essencialmente agrícola. Segundo a FAO, 70% da população haitiana é economicamente dependente da agricultura. Portanto, a questão da semente está no centro do debate.

Os agricultores haitianos têm uma relação tradicional de cuidado com as sementes. Uma parte para consumo, outra destinada à venda e o restante é economizado para semear na próxima temporada: este é o ciclo de plantio. A colheita de um ano dará a semente para o próximo, sejam eles próprios ou vizinhos, porque os camponeses trocam sementes. Portanto, a entrada da Monsanto significaria perder uma dinâmica social e cultural com milhares de anos de história.  

Como em muitas partes da região, os agricultores são párias na sociedade: têm poucas ferramentas, o que gera baixos níveis de produção, e o Estado não investe no campo e os bancos não oferecem empréstimos. Mal se tem machado, facão, enxadas. Muitas vezes são as mesmas ferramentas sendo reaproveitadas desde os tempos da Colônia. 

Enfrentam problemas como erosão, baixo acesso aos meios de produção e dependência de chuvas. Eles também são frequentemente vítimas de riscos ambientais aos quais não estão protegidos. 

Suas fazendas são pequenas. Os agricultores têm dificuldade em aproveitar sua atividade de subsistência e o pequeno excedente que recebem é investido na educação de seus filhos. 

Este estado de opressão no passado, juntamente com as políticas de importação de alimentos, significa que os camponeses não podem trabalhar como sabem que são capazes. Justamente essa depreciação é usada como pretexto para a entrada do projeto estrangeiro que, longe de chegar à agricultura local, era um outro experimento estrangeiro de laboratório. 

A multinacional Monsanto conseguiu inserir sementes usando o programa Winner, embora não em grande escala, como pretendiam. Enquanto isso, a agricultura haitiana continua a despencar e a insegurança alimentar está piorando a cada dia. Muitas ONGs que haviam se estabelecido em 2010 foram aposentadas algum tempo depois. Mas agora, com a pandemia de Covid-19, encontram outra oportunidade de fazer “doações” que acabam sendo bons negócios para eles, enquanto, para o Haiti, deixam apenas dependência. 

Fritar, rezar e (sobre)viver

30 de junho, 2020 Fritar, rezar e (sobre)viver Em Honduras, cestas básicas emergenciais têm comida de menos e folhetos bíblicos demais.
Um país assolado pelas mudanças climáticas, com terras cada vez mais concentradas e uma população urbana empobrecida se encontrou com a pandemia.

Leia a reportagem completa
As cestas básicas prometidas pelo governo chegam em quantidade insuficiente, repletas de porcarias e sem qualquer padrão. Mas sempre com mensagens bíblicas.
O avanço dos neopentecostais sobre o Estado fica ainda mais claro em tempos de pandemia. Faltam ações de ajuda real, sobram exortações de fé. No campo, avança o cultivo voltado ao óleo de palma. “Agora temos o óleo para cozinhar, mas não a comida”, resumem os camponeses.

Leia a reportagem completa
Outra parte das terras cultiva frutas para exportação. Apenas 15% das bananas ficam no território nacional.
Nas cidades, as fortes restrições de circulação se chocaram com uma economia marcada pela alta informalidade e um quadro social de pobreza, desnutrição e doenças crônicas.
Em meio a tudo isso, as pessoas sobrevivem. Não por causa da ação do Estado, mas apesar dela.

Leia a reportagem completa

30 de junho, 2020 Fritar, rezar e (sobre)viver Em Honduras, cestas básicas emergenciais têm comida de menos e folhetos bíblicos demais.
Um país assolado pelas mudanças climáticas, com terras cada vez mais concentradas e uma população urbana empobrecida se encontrou com a pandemia.

Leia a reportagem completa
As cestas básicas prometidas pelo governo chegam em quantidade insuficiente, repletas de porcarias e sem qualquer padrão. Mas sempre com mensagens bíblicas.
O avanço dos neopentecostais sobre o Estado fica ainda mais claro em tempos de pandemia. Faltam ações de ajuda real, sobram exortações de fé. No campo, avança o cultivo voltado ao óleo de palma. “Agora temos o óleo para cozinhar, mas não a comida”, resumem os camponeses.

Leia a reportagem completa
Outra parte das terras cultiva frutas para exportação. Apenas 15% das bananas ficam no território nacional.
Nas cidades, as fortes restrições de circulação se chocaram com uma economia marcada pela alta informalidade e um quadro social de pobreza, desnutrição e doenças crônicas.
Em meio a tudo isso, as pessoas sobrevivem. Não por causa da ação do Estado, mas apesar dela.

Leia a reportagem completa