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De las narices

por Laura Rodríguez Salamanca
Fotografía: Nacho Yuchark
Publicado em 16 dezembro 2021

Toda receita tradicional pode ser reproduzida com farinha, químicos, óleo vegetal e sal, embrulhada em papel metálico e vendida para milhões de crianças como se fosse um alimento. O boom do snack, os petiscos, que segue o caminho inaugurado por Doritos, conquista o mundo e mantém as crianças como sentinelas ingerindo perfumes em vez de ingredientes.

São às 10 da manhã em um dia nublado e fresco. Tenho oito anos. Me sento no pátio da escola, ao lado da quadra de basquete e perto da casa de bonecas. A grama está verde e ainda um pouco úmida pelo sereno da madrugada. Ao meu redor outras crianças correm, jogam bolas, se escondem em meio a travessuras.

Eu abro a lancheira rapidamente. Mal posso esperar para ver que surpresa que tem dentro. Acho suco de goiaba, queijo e biscoitos. Não era o que eu queria, mas estou com fome e começo a comer. Uma criança se senta ao meu lado e abre a sua lancheira: um pacote de batatas fritas com sabor de frango e uma Coca-Cola. O melhor lanche do mundo! Por que minha mãe não faz isso? Somos tão pobres que não podemos comprá-lo? Sinto tanta vergonha que passo o resto do recreio sozinha.

Isso aconteceu várias vezes na minha infância. Estudei em Tábio, uma vila a cerca de uma hora de Bogotá. Em uma escola pública daquelas  frequentadas por crianças de todas as classes sociais. E como minha família raramente comprava petiscos para o recreio, houve momentos em que me sentia diminuída na frente de outras crianças. Inclusive, algumas vezes eu preferi guardar a lancheira e brincar sem comer nada. Hoje eu não teria esse problema: lanches e refrigerantes se tornaram populares a ponto de não haver nenhuma criança que não tenha um na sua lancheira que pode pegar quando quiser.

Doritos e Cheese Tris, ‘De Todito’ (De Todinho) ou ‘Todo Rico’ (Tudo Gostoso); frituras sabor de frango, limão ou refeições completas; pequenos triângulos que tingem os dedos de laranja e enchem os corpos de óleo, sal e dezenas de aditivos são os produtos mais consumidos pelas crianças na Colômbia. De acordo com os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, realizada em 2018 pelo Ministério da Saúde, quatro em cada cinco alunos consomem produtos embalados e nove em cada dez não comem as frutas e hortaliças recomendadas: cinco porções diárias.

Os Cheetos, que em um pequeno saco juntam cereais de milho, sal iodado, óleo vegetal parcialmente hidrogenado, farelo de soja, glutamato monossódico, amido modificado, ácido cítrico e proteína de soja com corantes artificiais que os tornam marcantes, como o amarelo por-do-sol e corante de tartrazina. Esses eram meus favoritos.

Foto: Nacho Yuchark

Pequenos grandes clientes

Na Colômbia, 24% das crianças entre cinco e doze anos estão acima do peso. Nenhuma come a quantidade de frutas e legumes recomendados pela Organização Mundial da Saúde. E a maioria das famílias também não tinha como saber à primeira vista que esses produtos que compram com sacrificio para encher a lancheira estão diminuindo a expectativa de vida de seus filhos.

Carolina Piñeros – cabelo grisalho, sorriso largo – é engenheira industrial, mãe de três filhos e diretora executiva da Red Papaz, uma organização da sociedade civil que denuncia a propaganda enganosa e agressiva de junk food pelos danos à saúde que pode causar. É cordial e explica devagar e com calma: “quando começamos a trabalhar na questão da alimentação, em 2012 ou 2013 descobrimos que para crianças que tinham um problema de sobrepeso ou diabetes tipo um, e não conseguiam consumir esse tipo de produto, era quase melhor nem ir à escola, porque para uma criança é muito difícil não estar na moda na escola, parar de consumir o que parece legal”.

Os pacotes de petiscos fazem de tudo para se tornarem ícones da infância: promoções, presentes e acordos com estrelas do futebol – que provavelmente nunca comeriam essas coisas – como Cristiano Ronaldo, Messi, El Pibe Valderrama e a atriz Margarita Rosa de Francisco.

Em um desses comerciais de televisão onde El Pibe aparece com seu penteado característico, alguns jovens entediados passam a tarde. Eles decidem abrir um pacote de batatas e depois de comer apenas um, seu sabor os transporta para uma floresta onde dançam com um frango gigante e batata ao ritmo de ‘El Polvorete’, uma canção tropical e pegajosa que todo colombiano já ouviu, pelo menos uma vez.

“Essa publicidade vem nos enganando há muitos anos, vendendo esses produtos com uma imagem de energia, felicidade e infância que cria até mesmo relacionamentos emocionais com marcas”, diz Piñeros.

Os pacotes de frituras não deveriam ser considerados alimentos, mas são. Ao ponto de fazerem parte da cesta básica elaborada pelo Departamento Nacional de Estatísticas (Dane), onde os produtos mais consumidos pelas famílias colombianas são listados. Eles estão nessa lista, juntamente com alimentos-chave na dieta colombiana, como arroz, frango, lentilha e queijo.

A origem

Houve um tempo não muito tempo atrás, quando minha mãe era pequena, quando o cardápio da escola era mais ou menos assim: laranjas, tangerinas, manga ou qualquer outra fruta da estação, chocolate com leite e trigo ou arepas de milho preparados em casa.

Hoje comemos produtos Frito-Lay da PepsiCo, a empresa de lanches número um em todo o mundo (com lucros anuais superiores a US $10 bilhões). Esta empresa americana chegou à Colômbia em 1995 com produtos como Cheetos e Doritos.

Roger Araque, é engenheiro químico e atua há mais de 30 anos na produção de embalagens para produtos como Doritos, Galletas Saltinas e biscoitos de milho Choclitos. Ele conhece o negócio, ele viu nascer. Ele viajou pelo país trabalhando com várias empresas. “O mercado de petiscos na Colômbia era muito popular”, diz ele com um sotaque vivaz da província de Antioquia. “Quem fazia batatinha frita eram empresas familiares em suas próprias casas ou em pequenas fábricas e as embalavam em sacos transparentes com pouca publicidade. Eram as famosas batatas rústicas ou batatas naturais que tinham até casca.”

Quando a filial da PepsiCo  , desembarcou com um arsenal de publicidade, marketing e distribuição no qual as empresas de capital nacional não costumam ou não podiam investir. E veio com seu produto estrela: Doritos.

Esses triângulos dourados de milho nasceram na década de 1960, quando um funcionário da empresa de produção Alex Food encontrou tortillas de milho descartadas no lixo da Casa de Fritos, um restaurante mexicano de propriedade da Frito-Lay, na Disneylândia. O homem viu nessas sobras uma oportunidade e recomendou ao chef fritá-las e vendê-las como um novo produto, que eventualmente se tornaria o primeiro comestível em ser lançado simultaneamente em todos os Estados Unidos e um dos ícones da comida ultraprocessada.

Mas qual era o segredo para vender essas sobras como tanto sucesso? No início, Doritos era simplesmente um produto comercializado no sudoeste dos Estados Unidos para ser colocado na mesa para pegar o molho de alimentos. Mas Archibald Clark West, um executivo da Frito-Lay, provou com sucesso com eles que que um produto poderia ter o gosto de um ingrediente, mesmo que não esse ingrediente não estivesse presente: que uma simples fritura de milho poderia ter gosto de tacos, queijo, pimentão ou qualquer prato de comida mexicana se sabores artificiais e aromatizantes forem adicionados. Essa é precisamente a fórmula para o sucesso do junk food: tem muito gosto, e muito bom.

 

Comendo o mercado

Pensando bem, naqueles recessos da minha escola eu não sei se o que eu queria era comer batatas fritas ou completar as coleções de carrinhos de plástico de montar, ter uma pulseira colorida e outro tazo (discos plásticos colecionáveis com figurinhas muito populares nos anos 90, oferecidos nas embalagens de salgadinhos). Comida com brinquedos: foi assim que esses produtos se tornaram populares na Colômbia e como as marcas locais tentavam se destacar.

Exemplo de publicidade da época –

Exemplo de publicidade da época

Jackos (de Industrias Gran Colombia), armayazos (de Yupi) e tazos (de Crunch). Vários nomes publicitários para as mesmas folhas de plástico decoradas com desenhos animados como looney tunes, Os Simpsons, Os Jetsons e Pokémon. Discos que montavam torres, travavam batalhas para virar as fichas do oponente e que, inclusive, se imaginava ter poderes.

A proposta de brincar foi um sucesso. Em poucos anos passamos de comer petiscos de batatas e derivados de milho, com um ou dois sabores, para encontrar pacotes de Doritos, Cheese Tris e torresminhos com sabores diferentes, embalados em saquinhos metalizados coloridos e com desenhos de personagens.

“A imagem do produto é tudo porque absolutamente tudo entra pelos olhos. O boom desse mercado foi trazido por mudanças nas embalagens, robustos anúncios de televisão e a diversidade de produtos que começaram a ser lançados. Muitos produtos não eram conhecidos aqui: Doritos, Choclitos, batatinhas apimentadas. Além disso, as estratégias de mercado estavam mudando. Por exemplo, as Copas do Mundo chegaram e o design de todas as embalagens foi alterado para que tivessem a ver com os campeonatos de futebol. Tudo isso foi trazido pela Frito-Lay para o país”, diz Araque.

E ainda que a indústria local copiasse, não havia lugar para todo mundo. A PepsiCo, que havia entrado no mercado ao criar uma nova identidade visual magnética para esses comestíveis, passou a trabalhar para acabar com potenciais concorrentes. Comprou empresas locais: primeiro Crunch, depois Indústrias Gran Colômbia e mais tarde, em 2000, Productos Alimenticios Margarita, uma empresa da província da Antioquia que havia se tornado sua principal concorrência e agora é a substituta da Lay’s na Colômbia. E conquistou o mercado. Em 2017, a Frito-Lay dominou 61,7% do mercado e vendeu mais de US $254 milhões por ano em frituras.

Foto: Miguel Tovar

Encurralados

Na Colômbia hoje, se uma criança está com fome antes do jantar sua mãe lhe dá frituras. Se ele sair para brincar com os amigos, ele traz dinheiro para um refrigerante e um lanche. Se você quiser um cachorro-quente, você pode acompanhá-lo com um pacote de batatas fritas.

A publicidade agressiva, voltada especialmente para esse segmento da população e das classes média e baixa do país, também invade visualmente. Empresas colocam cartazes em lojas escolares e de bairro, “doam” a prateleira onde seus próprios produtos são expostos, pagam por comerciais de televisão durante o horário familiar e fazem campanhas nas redes sociais para as quais contratam influenciadores como a modelo Natalia París e o ex-jogador de futebol Faustino Asprilla. Claro, eles ainda usam o Homem-Aranha e Lionel Messi, que nunca falham.

O ‘Todo Rico Calentado‘ tem sabores artificiais de carne grelhada, feijão frito e banana frita, que são compostos pelos aromas defumado, glutamato monossódico, ácido ascórbico (que modifica o sabor dos comestíveis e reforça seu sabor) e um anti compactante: o dióxido de silício.

Os bacons não são feitos de porco. São farinha de trigo fortificada com sal, bicarbonato de sódio, corantes (vermelho número 40, amarelo número 6 e azul número 1), dióxido de silício (antiaglutinante) e três acentuadores de sabor: glutamato monossódico, inosinato de disódico e guanylato de disódico.

E o “Todo Rico Ají criollo”, contém um “sabor picante idêntico ao natural”, que é composto de cebola, tomate, extrato de levedura, açúcar, sal, diacetato de sódio como conservante, ácido cítrico, dióxido de silício e dissódio 5′-ribonucleotídeos, melhoradores de sabor que atuam em combinação com glutamato monossódico.

“Isso não são alimentos, são formulações industriais projetadas para ter um sabor atraente e se assemelhar ao alimentos reais. Quando você olha para os ingredientes você descobre que eles trazem corantes, anti espumantes, perfumantes, uma mistura de produtos químicos que acaba gerando um produto comestível, mas que causam danos à saúde a curto, médio e longo prazo”, explica Rubén Orjuela, nutricionista e pesquisador da ONG Educar Consumidores. Este homem magro que usa óculos trabalha há 18 anos como conselheiro em políticas de alimentação infantil.

Outra razão para o sucesso dos alimentos fritos na Colômbia, explica Orjuela, é a falta de regulamentação da publicidade voltada para crianças e a não restrição de certos aditivos. Algo que agora finalmente parece começar a mudar com a sanção presidencial, em 5 de agosto de 2021, da Lei do Junk Food, uma regulamentação que as organizações da sociedade civil vinham tentando aprovar há cinco anos. Ele determina que até agosto de 2022, os pacotes de alimentos ultraprocessados tenham um rótulo frontal que onde se alerte se eles são ricos em sódio, gordura ou açúcares.

“Aqui é permitido o uso indiscriminado de glutamato monossódico, um aditivo que a nível industrial tem a função tecnológica de destacar o sabor, mas que tem efeitos nocivos à saúde e causa pseudo dependência. É o que faz você não comer um Dorito, mas todos os Doritos”, acrescenta Orjuela.

O Educar Consumidores sabe como a publicidade é eficaz porque sofreu censura própria. Em 2016, eles gravaram um aviso comercial sobre os efeitos nocivos das bebidas açucaradas, mas um mês depois de exibi-la em rede nacional, foram censurados devido a uma denúncia imposta pela Postobón, uma das maiores empresas de bebidas açucaradas do país. Somente até novembro de 2017, graças a uma decisão do Tribunal Constitucional, eles conseguiram veicular a mensagem de novo.

Só em 2020, a PepsiCo investiu três bilhões de dólares em publicidade e registrou receitas de mais de 70 bilhões de dólares. Para vencer, a multinacional desloca cada vez mais o consumo de alimentos produzidos localmente, frescos e nutritivos. Enquanto as crianças, como eu há alguns anos, desejam abir um pacote que é igual em Tabio, México, Peru ou China, elas cada vez menos desejam milho embrulhado, as amanteigadas, almojábanas e outros produtos locais e tradicionais que podem ser individualizados e conhecer a procedência.

Além disso, petiscos e ultraprocessados na Colômbia alimentam uma ideia aspiracional na qual é bom consumir um refrigerante ou um suco, mesmo que tenha menos de 14% de frutas, e embaraçoso carregar um suco preparado em casa.

“A ascensão dos comestíveis ultraprocessados levou a uma desconexão com alimentos reais. Quanto mais junk food você come, mais difícil é comer um cubio, um chugua, uma mandioca. Mas se eles te derem outro tóxico semelhante, com todos os aditivos e conservantes, o corpo recebe mais fácil”, conclui Rubén Orjuela.

Isso não se deve apenas ao vício gerado por alguns dos aditivos desses produtos, mas também porque a indústria de junk food molda o sabor e a expectativa de prazer dos consumidores. Para isso, ele recorre a estratégias de neuromarketing como Doritos tingindo os dedos de laranja, uma cor que inconscientemente nos relacionamos com energia, vitaminas e diversão; ou que a Frito-Lay promove alguns produtos com mensagens espalhadas por referências de “feminilidade” ou que reforçam a ideia de que são saudáveis para que as mulheres consumam mais. O pano de fundo: consumimos guiados por emoções, não pela razão.

Se eu pudesse aconselhar a menina de oito anos que era há mais de quinze anos, eu diria para não se preocupar, coma o queijo e o suco de goiaba. Nem tudo que brilha é ouro, nem tudo que você pode comer te alimenta, nem tudo o que parece divertido te faz bem.