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Fundamentalismo religioso e Covid: o combo do fim do mundo

por Soledad Barruti
Foto: Funai

A religião foi, desde a conquista, uma arma de destruição massiva de povos e territórios. Hoje, no Brasil, chega pelas mãos da evangelização, em plena pandemia. São centenas de povos que enfrentam a opressão, a conversão e a adoção de formas de vida – com alimentos, roupas e práticas – que nada têm a ver com as que possibilitam a vida nas montanhas e nas selvas

Nos últimos anos nossos territórios viram uma ampliação atroz da máquina de destruição massiva articulada para sustentar uma economia que sempre precisa abrir mais campos, construir mais currais, produzir mais minas, abrir mais poços de petróleo e conquistar novos consumidores. Agronegócio é como se chama.

Trata-se de uma ideologia e de uma práxis, que permite fabricar comidas viciantes e coisas que distraem e que então, como se não arrastasse consigo tamanha violência, avança. Avança, apesar de os estudos científicos mostrarem que estamos cavando um abismo rumo a um caminho de extinções sem retorno, que o colapso é iminente, que assim não há futuro possível. Avança, apesar do sofrimento, da dor, da infelicidade que explode em prisões e hospitais superlotados.

O ano de 2020 manteve um fio condutor devastador com 2019, e com o que vinha de antes também: o fogo. Durante dias que foram meses que já são anos, selvas e bosques da América Latina arderam até se transformarem em toneladas de cinzas feitas de corpos de animais e plantas, pilares de mundos que não existem mais. Mundo em que obviamente havia, há, pessoas.

Pessoas que padeceram o fogo que não acenderam, os tratores que tantas vezes passam por cima delas, os cultivos envenenados e a oferta de ultraprocessados que chega outra vez com as bíblias agora nas mãos de evangélicos que impõem preces enquanto cospem doenças como a Covid-19.

A colonialidade do poder mostra 500 anos depois de Colombo e de suas caveiras uma face mais bizarra, e ainda mais letal. Um genocídio com ternos de poliéster e demônios de Carnaval, canais de televisão e milionários milagrosos, funcionários de governos monstruosos e cerimônias com tapa-bocas que chegam tarde, aos confins mais remotos do Amazonas.

De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal), nessa região há pelo menos 45 milhões de indígenas de povos distintos, distribuídos entre cidades e áreas rurais, alguns deles ainda não contatados por esta nossa civilização… como chamar?

Escolha a definição que mais te represente. A moderna. A desenvolvimentista. A capitalista. A do antropoceno, ou a do androceno. A da colônia, a da Inquisição, ou a da supremacia branca. A que, como diz a antropóloga Rita Segato, não possui receptores para a crueldade nem vê além da episteme que a governa: incapaz de valorizar algo que não sejam saberes, corpos e paisagens brancos. A que nega outras existências humanas e demonstra que não pode compartilhar o mundo com as outras espécies enquanto extingue tudo. A civilização suicida. A da narco e a da necropolítica, que se aglomera em supermercados, quando é preciso manter distância física, para se encher de coisas que deterioram seus corpos no momento em que mais precisam estar fortalecidos. A que vê os povos indígenas como não desenvolvidos e selvagens.

A que, enquanto avança tal como avança, massacra nesses corpos e culturas e territórios aquela que talvez seja sua única salvação: a saída guardada pelos — nas palavras do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro — especialistas em fim do mundo.

As reportagens a seguir são as mais desoladoras e urgentes que publicamos até agora. Falam de religião, opressão e barbárie. E pareceria que não tratam do que tratamos com frequência, mas sim: revelam de modo único uma matriz devoradora que engole o passado e o presente para vomitar um futuro breve, mas, antes, pior.