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Pão de mentira

por Lucía Guadagno Argentina

Depende do Brasil o início de um experimento a céu aberto que poderia chegar em breve às nossas mesas. Já liberado na Argentina, o cultivo e a comercialização do trigo transgênico HB4 espera apenas o sinal verde da administração Bolsonaro para se tornar realidade. O experimento tem financiamento público, mas garante puro lucro para os mesmos de sempre. 

Pode ser um marco na história da alimentação mundial: com o cereal modificado geneticamente, pela primeira vez seria produzida a farinha a alimentar milhões de pessoas. Farinha que faz o pão, ou o macarrão que tantos comem sem muitas outras alternativas para saciar a fome. Também ingrediente sutil, discretamente acrescentado na maioria dos produtos ultraprocessados.

I.

Quando o segundo motor queimou, quase se deram por vencidos. O antigo moedor elétrico, que haviam tomado emprestado no povoado, não funcionava. Fernando ligou na fábrica para conferir preços de máquinas novas, mas eram caras demais. O dinheiro que tinham mal dava para pagar uma de tipo pequeno, dessas que moem pouco e esquentam demais o trigo. Parados em volta da máquina, se olharam e souberam que não havia alternativa: tinham que fazê-la funcionar. 

Nove anos antes, esse mesmo grupo de homens e mulheres – os “Vizinhxs Auto-Organizadxs de Hersilia” – conseguiu que o Conselho do povoado proibisse as fumigações de agrotóxicos a menos de 800 metros de suas casas. Em Hersilia, vilarejo argentino de três mil habitantes no limite entre as planícies do Pampa e do Chaco, faltava ar. 

Casos de intoxicação, câncer e abortos espontâneos começaram a ser registrados em 2004. Os problemas de saúde coincidiam com a mudança na paisagem: a montaria, a criação de animais e os currais leiteiros haviam sido substituídos por extensos cultivos de soja e milho. Pelas ruas de Hersilia, antes tranquilas, subia a fumaça das máquinas fumigadoras que iam e vinham da zona rural. Garagens residenciais e antigos galpões se convertiam em depósitos de veneno. Desmaiavam os moradores cujo trabalho era banhar as sementes com inseticidas (uma das práticas da agricultura industrial é embeber preventivamente as sementes com inseticidas, de forma a evitar que sejam atacadas por pragas). 

Preocupados com esse panorama, reclamaram. Conseguiram que as autoridades locais aprovassem uma diretriz, que logo deixou de ser cumprida: “Fumigavam à noite e era preciso pegar-lhes desprevenidos”, recorda-se Fernando Albrecht, um dos moradores. “Fomos fazer pressão sobre a polícia para que percorresse conosco o perímetro de 800 metros. Como não se sabia bem até onde ia [o perímetro], juntamos os vizinhos e tiramos as medidas. Depois pintamos marcadores e falamos com os produtores. Passaram-se dois anos até que tomássemos consciência do que se passava nos campos.” 

Uma vez que o perímetro livre de venenos se tornou realidade, os Vizinhxs Auto-Organizadxs de Hersilia tiveram de resolver outro problema: pequenos produtores que se localizavam dentro da zona de 800 metros. Alguns deles usavam venenos para combater pragas e insetos, é verdade, mas precisavam seguir produzindo para sobreviver. Começou aí um projeto de produção que não apenas implicava aprender a cultivar sem agrotóxicos, mas a usar as terras para produzir alimentos necessários e acessíveis a toda a comunidade. 

Dez anos depois, esses mesmos moradores estão agora ao redor da máquina de moer. Precisam que ela funcione para que converta em farinha integral o trigo agroecológico que plantaram no ano passado. É o segundo motor que se funde. Não são mecânicos. Tampouco especialistas em farinha. Mas têm determinação. 

II.

A 420 km a sudeste de Hersilia, na cidade de Rosário, os executivos da Bioceres, uma companhia de biotecnologia agrícola, vivem uma grande expectativa. No dia 9 de outubro, o governo argentino autorizou o cultivo e a comercialização do trigo transgênico HB4 desenvolvido pela Trigall Genetics, uma empresa conjunta (joint-venture) da Bioceres com a multinacional francesa Florimond Desprez. Trata-se de um trigo modificado geneticamente para ser tolerante à seca e resistente ao herbicida glufosinato de amônio, um veneno de amplo espectro, mais tóxico do que o já conhecido glifosato.

No entanto, para concluir a autorização, o governo do presidente Alberto Fernández estabeleceu como condição que o HB4 também seja liberado pelo Brasil, já que se trata do principal comprador do trigo argentino.

Se o Brasil o aprovar, será um grande negócio para as empresas. Mas, especialmente, será um marco na história da alimentação mundial: pela primeira vez no mundo, começaria o cultivo e a venda de um trigo modificado geneticamente, com o qual será produzida a farinha que alimentará milhões de pessoas. Até agora, as multinacionais que concentram o negócio das sementes e dos insumos químicos para a agricultura industrial não haviam conseguido mexer com o pão. Pelo menos não de forma tão direta. Por isso esse trigo transgênico, diferentemente de outros cultivos modificados geneticamente, sofre resistência de frentes múltiplas: não só as organizações sociais e de trabalhadores rurais o rechaçam, também boa parte do mundo científico, da Justiça, e inclusive do mercado.

As câmaras empresariais que reúnem grandes produtores de trigo e de farinha tanto no Brasil como na Argentina não aceitam a ideia de cultivar e comercializar trigo transgênico. Defendem que geraria mais perdas que benefícios, já que os consumidores não desejam alimentos transgênicos. Sobretudo na União Europeia, que tem normas muito estritas em relação a esses produtos.

“A CTNbio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) nunca negou um pedido de liberação comercial de plantas transgênicas no Brasil. O que significa que é muito provável que esse trigo também seja aprovado”, explica Naiara Bittencourt, advogada da organização brasileira Terra de Direitos. “Mas ao mesmo tempo nunca vimos no Brasil uma resistência tão grande de atores econômicos tão importantes. Por exemplo, as indústrias de processamento de trigo e também as indústrias de produtos panificados. Além disso, dos próprios consumidores.”

Por que um cultivo que chegaria em forma de farinha e pão para milhões de habitantes do planeta preocupa tanto? Algo que alimentaria especialmente os mais pobres e vulneráveis?

Na agricultura, os transgênicos ou organismos geneticamente modificados (OGM) são sementes às quais são introduzidos genes de outras plantas ou espécies, como bactérias, para lhes dar alguma característica que normalmente não possuem. Elas passam a ser, por exemplo, resistentes a insetos, a herbicidas sintéticos ou tolerantes à falta de água.

O problema reside em que nem o Estado brasileiro nem o argentino podem garantir à população que os transgênicos já liberados, como a soja ou o milho, não sejam prejudiciais à saúde. O mesmo com o trigo HB4. Não podem fazer isso, simplesmente, porque não realizam os estudos necessários para ter esse conhecimento. Nos dois países, os transgênicos são aprovados com os informes apresentados pelas mesmas empresas interessadas na autorização. No Brasil, publicam-se alguns documentos e é feita audiência pública. Na Argentina, pelo contrário, tudo é secreto e confidencial.

“As empresas fazem estudos a curto prazo que não servem para detectar prejuízos à saúde”, explica o pesquisador brasileiro Rubens Nodari, do programa de graduação em Recursos Genéticos Vegetais da Universidade Federal de Santa Catarina, que analisou os documentos sobre o trigo HB4 que estão sendo avaliados pela CTNBio no Brasil. “Com o transgênico, foram alimentados ratos durante 14 dias e frangos durante 42 dias. E depois foram comparadas características como peso e altura, sem que fossem estudados os órgãos internos. Esses estudos não são suficientes para afirmar que não ocorrerão danos à saúde.”  

Na Argentina, os transgênicos são aprovados pela Comissão Nacional de Biotecnologia (Conabia). Em 2017, a revista MU revelou que dos 34 integrantes do órgão (cujos nomes até o momento permaneciam em segredo), 26 pertenciam às mesmas companhias que produzem as sementes ou eram cientistas com conflitos de interesse.

Dois anos depois, um informe da Auditoria Geral da Nação alertou: “A Argentina não conta com um marco de referência teórico-metodológico para garantir o uso seguro e sustentável dos OGM de acordo com o estipulado no plano nacional no princípio precautório estabelecido na Lei 25.675 (Lei Geral Ambiental, artigo 14º) (…) A Conabia não realiza análises experimentais sobre os materiais a serem aprovados (…). As avaliações de risco ambiental são do tipo documental, realizadas com base na informação técnico-científica remetida pelo solicitante sob a forma de declaração juramentada.”

O princípio precautório estabelecido em 1992 na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente, reconhecido depois no Protocolo de Cartagena sobre a segurança da biotecnologia (2000) e incorporado em legislações nacionais em diversos países, estabelece: “Quando houver perigo de dano grave ou irreversível, a falta de certeza científica absoluta não deverá ser utilizada como razão para postergar a adoção de medidas eficazes em função dos custos para impedir a degradação do meio ambiente”. Ou seja, ainda que os Estados não possam afirmar com segurança que os transgênicos causem danos à saúde ou ao meio ambiente, devem suspender as autorizações para prevenir efeitos negativos irreversíveis. Porque tampouco podem afirmar o contrário.

Além da falta de transparência e proteção à saúde e ao meio ambiente, o caso do trigo HB4 na Argentina é ainda mais escandaloso. Porque o Estado não só autorizou o transgênico: teve um papel fundamental na sua criação.

O trigo HB4 foi desenvolvido por uma equipe de cientistas argentinos liderados pela pesquisadora Raquel Chan, diretora do Instituto de Agrobiotecnologia do Litoral, que depende de uma universidade pública (a Universidade Nacional do Litoral – UNL) e do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet). Feito e financiado em parte pelo Estado argentino, em uma parceria público-privada realizada através de convênios aos quais a cidadania não teve acesso. O Bocado solicitou a leitura dos documentos tanto ao Conicet – que não respondeu ao pedido da reportagem – como a Raquel Chan, que disse não tê-los.

III.

Nos laboratórios da Universidade Nacional do Litoral, Chan e sua equipe fizeram duas modificações genéticas no trigo. 

Por um lado, introduziram um gene do girassol, que permite que a planta tolere a falta de água por mais dias que o trigo comum. Apesar de a promoverem como “tolerante à seca”, a própria empresa reconhece que não se trata de um trigo que pode ser cultivado em zonas áridas, onde não chove, mas sim que “aguentam” um pouco mais a falta de água, em regiões onde já são cultivados. “Se não chover durante 15 dias é ativado o gene do girassol, que faz a planta aguentar um pouco mais. Mas se não chover em seis meses, não. Isso não é magia. A água é o principal recurso da agricultura”, diz Gabino Rebagliatti, gerente de comunicação corporativa da Bioceres. 

Por outro lado, eles inseriram um gene de uma bactéria que faz do trigo resistente ao herbicida glufosinato de amônio, um potente agrotóxico, de amplo espectro, conhecido como touch down. Esse tipo de herbicida começou a ser utilizado nos países do Cone Sul no final dos anos 90, com a introdução da soja round up ready, da multinacional Monsanto. Uma soja transgênica resistente ao herbicida glifosato, substância usada na produção do Roundup. 

Os herbicidas são usados no modelo agroindustrial de monocultivo para eliminar todas as “ervas daninhas” ou plantas não desejadas, que nascem de maneira espontânea e competem com o cultivo principal pela luz, água e nutrientes. Tanto o glifosato quanto o glufosinato de amônio matam todas as plantas, exceto as que estão modificadas geneticamente para resistir a eles. Esses venenos são fumigados com aviões, do ar, ou com máquinas terrestres que avançam sobre os campos com dois largos braços, ou asas, das quais saem bicos de pulverização. 

Entre 1996 e 2019, sem estudos independentes e pelas costas da população, governos das mais variadas bandeiras políticas – desde Evo Morales, na Bolívia, até Mauricio Macri, na Argentina – aprovaram 85 transgênicos no Brasil, 61 na Argentina, 41 no Paraguai, 19 no Uruguai e um na Bolívia. Entre eles, soja, milho, algodão, alfafa e batata.

“O avanço territorial do modelo transgênico foi devastador. O Uruguai passou de 9 mil hectares com soja transgênica, no ano 2000, a 1,1 milhões, em 2018. A Argentina contava com 6,6 milhões de hectares com soja em 1996 e chegou ao pico máximo de 20,5 milhões de hectares de soja transgênica em 2015. O milho passou de 4,1 milhões de hectares em 1996 a 6,9 milhões em 2015”, revela o Atlas do Agronegócio Transgênico do Cone Sul, publicado em 2020. A Bolívia aumentou em seis vezes seus hectares de soja entre 1990 e 2017. E o Paraguai passou de 1,15 milhão a 3,4 milhões entre 1997 e 2018. 

Na América Latina e a nível mundial, o pacote tecnológico das sementes transgênicas e agrotóxicos representou um sucesso comercial para um punhado de companhias, multinacionais, cada vez mais concentradas, como Monsanto (hoje Bayer), Syngenta (ChemChina) e Dow, Dupont e Pioneer (hoje Corteva Agriscience). Do lado oposto ao sucesso das multinacionais está uma tragédia sanitária, social e ambiental sem precedentes, também chamada de ecocídio. Tragédia que pode se aprofundar se o trigo transgênico for autorizado. 

Já não haverá volta, alertam pesquisadores, organizações sociais e até as próprias entidades representativas da indústria do trigo. Será impossível garantir que o trigo que se consome, por mais que se decida usar sementes não transgênicas, seja um alimento livre de OGM. 

Isso acontece porque, uma vez no meio ambiente, o transgênico “contamina” o não transgênico, conferindo a ele genes que naturalmente não teria, através da fertilização cruzada ou pela mistura de sementes. Pelas características do trigo, é mais provável que isso aconteça por conta da mistura de sementes, algo que acontece frequentemente com as colheitadeiras, no transporte e armazenamento dos grãos, pela ação de animais, como aves e ratos, e em especial pela ação das pessoas, que transferem e trocam sementes. “Isso já acontece com outros cultivos transgênicos. Não tem como controlar”, afirma o pesquisador brasileiro Rubens Nodari.

É por isso que já são preocupantes os 6000 hectares de trigo HB4 que a Bioceres informou ter semeado na Argentina como parte das suas provas de campo. A empresa não detalha em que lugares específicos essas sementes estão sendo cultivadas, argumentam que é confidencial. Mas confirmaram que é na região do Pampa úmido, a principal zona de trigo do país.
Cultivos de trigo transgênico. Foto: Miguel Tovar.

IV.

Câncer, malformações, abortos espontâneos e problemas respiratórios fazem parte de uma longa lista de dramas e doenças sofridas por quem vive próximo aos campos fumigados. Cientistas independentes começaram a demonstrar em laboratório o que os agricultores denunciavam em suas vilas e cidades: o glifosato, principalmente em sua versão formulada – isto é, misturado a outros produtos químicos disponíveis no mercado – desencadeia todos esses males.

Andrés Carrasco, médico e cientista argentino do mais alto nível – falecido em 2014 – foi um dos principais expoentes da ciência que passou a demonstrar e denunciar os estragos desse modelo. Em 2009, quando era diretor do Laboratório de Embriologia Molecular da prestigiosa Universidade de Buenos Aires (UBA), ele confirmou que o glifosato causa malformações e é letal em embriões de anfíbios. A relevância de sua descoberta foi evidenciada pela campanha de perseguição e difamação que sofreu nos anos seguintes por colegas e funcionários do governo argentino – como o ex-ministro da Ciência Lino Barañao e o atual ministro, Roberto Salvarezza –, vinculados a empresas de transgênicos e agrotóxicos.

Em 2015, seis anos depois de Carrasco, a Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como provavelmente carcinogênico para humanos. Nos Estados Unidos, a Monsanto foi condenada a pagar milhões de dólares às pessoas que desenvolveram câncer como resultado do Round Up Ready. O problema é de tal magnitude que em junho de 2020 a Bayer, atual dona da Monsanto, foi forçada a fechar um acordo de 11 bilhões de dólares para resolver 75% dos quase 125.000 processos semelhantes, de acordo com a companhia.

Também ficou demonstrado que os pesticidas não se degradam rapidamente no meio ambiente, como disseram seus fabricantes, e permanecem como poluentes no solo e na água. Chegam até os alimentos consumidos nas cidades, como demonstra o advogado ambiental Fernando Cabaleiro em seu detalhado relatório “El Plato Fumigado”, baseado em medições oficiais de agrotóxicos em alimentos.

Pesquisadores da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, encontraram resíduos de glifosato em rios, lagoas, peixes, na chuva, no algodão e até em gases. Damián Marino, cientista do Centro de Pesquisas Ambientais (CIM) da universidade, alerta agora que o glufosinato de amônio, herbicida que acompanha o pacote de tecnologia HB4 Wheat, é mais perigoso que o glifosato. Por ser três vezes mais tóxico na dose letal 50 (dose de uma substância que deve ser ingerida para ser fatal em pelo menos metade da população estudada) e por ser 15 vezes mais restritivo no seu consumo, de acordo com a ingestão diária permitida pela FAO (0,3 miligramas por quilo para glifosato e 0,02 miligramas por quilo para glufosinato).

A partir de 2012, a quantidade de transgênicos resistentes ao glufosinato de amônio começou a crescer significativamente. Na Argentina, dos 27 transgênicos aprovados entre 1996 e 2012, apenas oito deles (29%) apresentavam resistência ao glufosinato de amônio. Porém, de 2013 a 2019, dos 34 aprovados, 18 incorporaram resistência ao glufosinato. Um dos motivos desse aumento é a própria natureza: em poucos anos, as ervas daninhas se tornaram resistentes ao glifosato. Consequentemente, as empresas começaram a promover o glufosinato como suplemento ou substituto. Não demorará muito para que as plantas também se tornem resistentes a ele.

“A necessidade de associar o glifosato ao glufosinato nas novas sementes é responsável pelas inconsistências da tecnologia transgênica tanto em sua construção quanto em seu comportamento ao longo do tempo. No entanto, as pessoas continuam tentando remediar as fragilidades conceituais da tecnologia dos transgênicos com soluções que tendem a ser cada vez mais perigosas”, alertou Andrés Carrasco em documento publicado em 2012. E alertou: “O glufosinato em animais foi revelado como causador de efeitos devastadores. Em ratos, o glufosinato produz convulsões, estimula a produção de óxido nitroso e morte celular no cérebro.”

Leonardo Melgarejo é agrônomo e ex-membro da CTNBio, no Brasil. “Estamos muito preocupados com a presença de resíduos de glufosinato de amônio no trigo transgênico argentino”, afirma. “Não vemos como será possível evitar seu uso no trigo transgênico. E será no pão que as crianças comerão todos os dias. O risco é inaceitável. As chances de danos irreversíveis são sérias o suficiente para que este produto seja proibido em muitos países.”

Se finalmente aprovadas pelo Brasil, as farinhas de trigo e todos os seus derivados se tornariam alimentos geneticamente modificados e contaminados com glufosinato de amônio. Embora o trigo não transgênico já seja fumigado com pesticidas, herbicidas de amplo espectro não eram usados até agora.

“O trigo é uma safra de inverno. Até agora, a pulverização massiva de pesticidas foi limitada às estações da primavera e verão (embora também seja aplicada no final do inverno como ‘pousio químico’). A aplicação do glufosinato de amônio levará à pulverização com este herbicida altamente tóxico no inverno, quando a suscetibilidade a doenças respiratórias é ainda maior”, alerta a declaração “Com o nosso pão, não”, na qual centenas de organizações sociais e camponesas da América Latina exigem que a aprovação do Trigo HB4 seja interrompida.

Reprodução: Twitter

V.

Nos últimos 20 anos, ao lado da criação de gado industrial, o modelo de produção agrícola em grande escala arrasou com bosques, savanas, pradarias e pântanos. Expulsou com violência comunidades indígenas e de trabalhadores rurais, e se converteu em uma das principais causas da crise climática.

No Brasil, foram destruídos 29,2 milhões de hectares de bosque entre 1997 e 2019, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Isso equivale a quase o dobro da superfície do Uruguai. Na Argentina, foram 5,7 milhões de hectares entre 1998 e 2017, informa o Greenpeace com base em dados oficiais. 

A agroindústria passou a ser o segundo setor econômico a gerar mais emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Isso é o que adverte o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, por suas siglas em inglês), órgão oficial de âmbito internacional que estuda a crise climática e seus impactos. Em sua análise, o painel leva em consideração o desmatamento, os incêndios intencionais, a degradação do solo e todas as atividades anteriores e posteriores ao cultivo, como a produção de agroquímicos, o transporte e o uso de maquinário agrícola.

A evidência é assustadora. Os danos, a esta altura, são incalculáveis. No entanto, as companhias, em conivência com governos e com um sistema científico cúmplice, se apresentam como a solução ao caos que elas mesmas criaram.

“A incidência da seca foi aumentando à medida que a mudança climática piora no mundo inteiro, o que afeta a estabilidade dos ecossistemas agrícolas. Além de mitigar as perdas de produção durante as condições de seca, o HB4 também facilita o duplo cultivo, que rota estacionalmente a soja e o trigo, um sistema agrícola que respeita o meio ambiente, que de outro modo estaria limitado pela disponibilidade de água”, afirma o comunicado à imprensa da Bioceres, (disponível apenas em inglês), que faz referência não só ao trigo, mas também à soja HB4 aprovada em 2015 na Argentina e à espera do sinal verde da China, seu principal comprador, para ser lançada no mercado. 

Uma semana antes da aprovação do trigo transgênico, a pesquisadora Raquel Chan, ao lado do CEO da Bioceres, Federico Trucco, publicaram um documento em que defendem os transgênicos e analisam os motivos pelos quais consideram que não se encontram generalizados nos mercados. Enumeram aspectos técnicos, regulatórios (como as restrições da União Europeia) e “a má percepção pública dos organismos geneticamente modificados (OGM)”.

No dia da aprovação do trigo, o ministro argentino da Ciência, Roberto Salvarezza, expressou apoio aos mecanismos da parceria público-privada porque, disse, “são os que realmente permitem que nosso país seja competitivo”.

É evidente que nem Chan nem Salvarezza se sentem constrangidos em se identificar com interesses privados. Pelo contrário, associam o Estado com empresas mediante convênios secretos e sem participação cidadã. O dinheiro que o Estado recebe depois por conta da concretização desses negócios também não é conhecido em detalhes, justamente porque não é possível ter acesso aos documentos.

“Os convênios não estão disponíveis. Eu, que estou envolvida, não os tenho”, responde Raquel Chan à consulta do Bocado. “Mas posso explicá-los para você”, afirma. No caso do trigo HB4, explica que o Estado entrou com os recursos humanos (ela e sua equipe), conhecimentos, infraestrutura e equipamento. A empresa Bioceres, por sua vez, entrou com o dinheiro para o desenvolvimento da tecnologia e testes de campo. E, dado que os transgênicos possuem royalties, porque as multinacionais conseguiram fazer com que as sementes sejam patenteadas, como se fossem uma invenção, Chan esclarece que “em caso de haver royalties, ou seja, se isso chegar ao mercado, a Bioceres tem que pagar uma porcentagem da venda bruta da semente ao Conicet e à UNL”.

Continua: “Para o Estado volta uma porcentagem interessante, 5% ou 6% do bruto faturado. Pode parecer que não é um valor muito alto, mas o que acontece é que, depois que se termina o desenvolvimento, nós já não investimos mais. Eles (Bioceres), pelo contrário, têm que fazer a produção, a venda, a comercialização. Se não chegar ao mercado, ninguém ganha nada. Se chegar ao mercado, o Conicet se beneficia de forma significativa, é um dinheiro interessante”.

Quanto aos impactos ambientais, Chan afirma que os controles estatais são confiáveis e que o problema dos agrotóxicos têm a ver com sua má aplicação.

— A sra. pode garantir que o consumo de transgênicos não causa nenhum dano à saúde?

— Posso te garantir que com o HB4 não há danos à saúde. Não com todos os alimentos transgênicos. Por isso a Conabia estuda caso a caso. 

 

— Qual é sua postura sobre o fato de que os transgênicos desenvolvidos pela sra. e por sua equipe implicam o uso de tóxicos contaminantes que adoecem as pessoas?

— A agricultura extensiva já usa herbicidas. Aqui e na Europa, onde os transgênicos são proibidos. Você tem ervas daninhas, e elas competem com o cultivo. Roubam água e nutrientes. Portanto o produtor as mata. Qualquer coisa que mate a erva daninha – que é uma planta, uma planta que não queremos -, é por definição algo que mata. Ainda não foi encontrado algo que mate a planta que seja carinhoso, que mate com carinho. São todos tóxicos. Possuem graus diferentes de toxicidade, mas hoje em dia o trigo é cultivado com outros herbicidas. Com 2,4-D, que é mais tóxico.

 

— Não acha que há outras formas de controlar ervas daninhas? Com a agroecologia, por exemplo?

— Não em grandes extensões. Já escutei isso um montão de vezes. Não sou especialista, mas isso serve em lugares pequenos, terrenos pequenos, na agricultura familiar, onde você pode ir retirando as ervas daninhas à mão. Se você tiver um terreno de 50 hectares, não pode retirá-las à mão.

 

— Há estabelecimentos como La Aurora, na província de Buenos Aires, que foram inclusive reconhecidos pela FAO por aplicar agroecologia em grandes extensões.  

-— Eu tiro o chapéu, se conseguem aplicar isso a grande escala. Não sou uma defensora dos herbicidas. O que penso é que nosso país recebe 70% das suas divisas por conta da exportação de grãos. Entre milho, soja e trigo. Se amanhã você mudar o sistema (produtivo), vamos para o brejo sem escalas. Não vamos poder comprar vacinas, nem celulares, nem peças de carros, nem aviões, nem nada—

Cultivos de trigo transgênico. Foto: Miguel Tovar.

VI.

“Confirmam que o trigo é rentável no modelo agroegológico”, publicou o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), da Argentina, em junho de 2020. Confirmavam o que já se sabia, inclusive por organismos conservadores em nível internacional, como é a FAO. 

Martín Zamora é um dos técnicos por trás da notícia. Trabalha em uma chácara experimental do INTA, no sul da província de Buenos Aires, onde há mais de dez anos investigam-se técnicas de produção agroecológica. Conseguiram produzir sem transgênicos nem agrotóxicos em campos de até 2.000 hectares. Foi a pedido dos próprios produtores, que viam cada vez mais reduzidos os lucros devido ao aumento do custo dos insumos e da deterioração dos solos.

O que fazem é substituir monocultivos – descritos como sistemas simplificados que nada têm a ver com o funcionamento complexo da natureza – por uma combinação de cultivos e animais que devolvem o equilíbrio natural ao ecossistema, enriquecem os solos e evitam a aparição de pragas. “Não é fácil. Você vai contra a maioria, e isso faz com que caminhe mais lento do que gostaríamos”, diz Zamora.

Acerca das dificuldades, enumera: “É algo novo. Ainda que a agroecologia adote conhecimentos ancestrais, também há muita tecnologia nova nos processos e é preciso ir criando conhecimento, investigação e desenvolvimento”. Também falta formação nas universidades: “Os profissionais que assessoram os produtores não sabem sobre produção agroecológica porque nas universidades não é ensinado”. 

E, por fim, daí direto ao ponto: “É difícil porque você vai contra os interesses das grandes multinacionais”. Exemplos surgem diariamente. “Os profissionais que vendem produtos químicos visitam continuamente os produtores. E quando um produtor não lhe compra e lhe fala de agroecologia, começam a encher a cabeça dele dizendo que vai se dar mal. Quando acompanhamos os produtores na transição à agroecologia, vamos ao campo a cada 45 dias. Entre as nossas visitas, o produtor recebe entre 5 e 10 visitas dos agrônomos que querem vender os produtos.”

Questiona e se incomoda com a aprovação do trigo transgênico: “A agricultura não necessita de um trigo transgênico, menos ainda que seja resistente a um herbicida”. Tecnologias que se apresentam como uma solução para os problemas que esse mesmo sistema de produção gera, diz, porque “atuam sobre as consequências, em vez de ir às causas. Se você semear o trigo como único cultivo, obviamente que na entressafra vão aparecer pragas como consequência. O que fazem? Atuam sobre a consequência: aplicam herbicida”.

O mesmo com a tolerância à seca: “Há seca porque os solos estão degradados. Não há poros nem matéria orgânica, que é o que permite reter a umidade. E a degradação dos solos é consequência do modelo de produção. O que se faz? Um trigo transgênico tolerante à seca. Outra vez se atua sobre as consequências”.

Zamora e sua equipe, assim como outros técnicos no país, avançam no desenvolvimento da agroecologia contra a corrente e quase sem recursos econômicos. “Todos esses avanços na agroecologia foram praticamente sem orçamento; 99% do orçamento argentino que se investe em investigação e desenvolvimento é para o outro sistema.” O dinheiro não chega a essa chácara do INTA: fica nos laboratórios que desenvolvem transgênicos. 

Carla Poth é doutora em ciências políticas e estuda em profundidade o sistema científico da Argentina e da região. “Quando se olha para onde vão os financiamentos e as políticas do Estado, enxerga-se com clareza uma lógica do conhecimento científico aplicado cuja finalidade é o fim prático do mercado capitalista”, adverte. O que Andrés Carrasco chamava de ciência cúmplice. “Um olhar à produção de conhecimento amarrada de maneira inequívoca à produção de transgênicos, apresentados como uma revolução, mas o único que se faz é sustentar o interesse das grandes corporações.”

Na visão de Poth, é urgente lidar com essa situação “porque essa economia concentrada está provocando um genocídio e um ecocídio silenciado”.

Espigas de trigo cultivado sem uso de agrotóxicos, em Hersilia, 2019. Foto: Violeta Pagani

VII.

Violeta Pagani é pura energia. Seus olhos grandes estão sempre atentos e, ao falar, o faz com clara segurança. “O grande problema com o trigo é que é um consumo massivo. Mudar isso é alterar a cultura alimentar de todo um povo.”

Ela cultiva trigo agroecológico a 70 quilômetros da sede de Bioceres e a uns 200 do laboratório onde Raquel Chan manipula as sementes. Violeta trabalha no campo, onde o vento mexe com o seu cabelo claro. Seu empreendimento se chama La Porfía e ela o leva adiante com outros três companheiros. Plantam em pequenos lotes, de três a cinco hectares, em Cañada de Gómez, uma localidade de uns 40 mil habitantes na pampa úmida. 

Ela vive perto dali, em um povoado chamado Ibarlucea. “La Porfía nasceu em 2011 com a produção de trigo, milho e farinhas integrais a partir desses grãos. Depois foi se ampliando e hoje temos uma grande diversidade de produtos agroecológicos, muitos lácteos e muito de armazém, doces e conservas”, disse, com entusiasmo. Alguns eles elaboram sozinhos, e outros em associação com produtores de leite, frutas e outros alimentos agroecológicos da redondeza. 

Violeta é engenheira agrônoma e entende a agroecologia como uma maneira de cultivar a terra para obter alimentos saudáveis e acessíveis para a comunidade que habita um território. “O que tem que ser colocado em discussão é todo o modelo. Que o debate pelo trigo nos sirva para tornar visível esse modelo de produção imposto em nossos países, com a exportação de commodities e com os ganhos cambiais. Discutir todo o sistema, inclusive a produção de frangos, de ovos, de carne de porco, de carne de boi em confinamento. Em todos os casos, é a produção de alimentos que é a base de insumos tecnológicos e venenos.”

Desde 2015 ela integra a Rede de Técnicos em Agroecologia do Litoral, e, junto a um de seus companheiros, viaja periodicamente uns 400 quilômetros até Hersilia, onde assessoram os vizinhos auto-organizados. “O projeto agroecológico para o periurbano de Hersilia aponta para um processo de desenvolvimento local endógeno que permite a geração de alimentos para consumo local, trabalho para quem processa essas matérias primas e que pode melhorar a qualidade nutricional do que se consome”, explica.

Um motor trifásico de dez cavalos em vez de sete, com a velocidade indicada e a proporção de polias apenas para as voltas que precisavam. Funcionou. O ruído foi ensurdecedor, voava poeira por todos os lados. “Ver a farinha sair e começar a produzir foi uma coisa linda, uma alegria enorme”, recorda Fernando Albretch, vizinho de Hersilia.

Blanca Argañaraz tem 31 anos e dois filhos. “Fomos moer os 30 quilos que restaram de trigo. Era a primeira vez que moía. Foi interessante, eu gostei, sobretudo porque é algo saudável, que não tem produtos das fumigações”, conta. Junto com outras doze mulheres, ela participa da elaboração dos panificados integrais a partir da farinha agroecológica. Cozinha na “La Casita”, um espaço onde funcionam um restaurante comunitário, uma horta e oficinas de arte e educação para as famílias. Comer pães, pastéis, tortas e pudins integrais foi uma novidade para ela e toda a sua família. “Sai muito gostoso. Nós provamos em casa e todos gostaram, inclusive os meninos. Estamos integrando aos poucos. E vende bem também.”

Do pátio de La Casita, mal se percebe o cheiro de pão recém-assado. “É mais suave que o pão feito de farinha comum”, conta Ofelia Vera, uma mulher magra, alta, tímida, mas com muita direção. “Com as mulheres vínhamos trabalhando em oficinas na horta, na cozinha e também em conversas uma com as outras, sobre nossas vidas, questões vinculadas à saúde, à violência de gênero e também à alimentação”, relata. 

E, “quando surgiu a possibilidade de cozinhar com a farinha agroecológica, começamos a buscar receitas e começamos a prová-las. Primeiro para nós mesmas, depois demos a pessoas mais próximas para provar, e depois começamos a vender na Praça do Povo. Isso é importante para que as mulheres possam ter mais fonte de dinheiro. São todas trabalhadoras, mas não têm emprego”. 

Aos poucos e com esforço, este círculo de autogestão ganha vida, cuidado e ajuda dentro desta pequena cidade nas planícies argentinas. “O que queremos é que as pessoas possam comer e ficar bem – sintetiza Fernando –. Que os alimentos que produzimos sejam acessíveis para todos e que se alguém pode trabalhar a partir disso, não para ter um salário para comprar um carro e fazer a vida de progresso que temos instalada em nossas cabeças, mas para viver com dignidade, que o faça. O que queremos é organizar a vida de uma comunidade que se autossustenta, que vive feliz, que prioriza a vida a partir dos vínculos”. 

Sobre o trigo transgênico, não há dúvidas: “Para nós, esse é o plano da morte. Se for aprovado, vamos lutar para que os produtores da região não plantem”.