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Missões evangélicas avançam na Amazônia e põem em risco povos indígenas e tradições ancestrais

por Tatiana Merlino Brasil
Foto: Daniel Cangussu

Rituais se tornam festas com doces e balões, e a Bíblia vira a lei: lutando contra o desmatamento, a pecuária e a mineração ilegal, índios se deparam com missionários incentivados por Bolsonaro para romper com o isolamento garantido pela Constituição

Primeiro, as meninas ficam reclusas. Depois, sentam-se num tronco. Seus parentes pegam uma pequena vara e batem de leve nas suas costas e nas pernas. É um momento importante, de orgulho, quando deixam de ser meninas para virarem mulheres. É um ritual de passagem das jovens indígenas da etnia Banawá, que vivem no sul do estado do Amazonas, no Brasil. 

A cerimônia está prestes a acontecer, mas é interrompida por missionários evangélicos que chegam com doces e balões e começam a distribuir para todos. A moça que seria “iniciada” fica revoltada com a situação. Ela se sente desprestigiada. “E todo um rito de uma comunidade se reduz a crianças comendo bala e brincando com balões”, relata o biólogo Daniel Cangussu, que presenciou vários rituais como esses. Os missionários interrompem um costume ancestral para impor sua própria maneira de comemorar aniversários. Outra vez, como há 500 anos, a religião é uma forma de conquista. 

Daniel foi coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Madeira-Purus, da Fundação Nacional do Índio (Funai), entre 2010 e 2019. Atuava tanto na localização dos povos isolados quanto no monitoramento junto aos indígenas de recente contato no sul do Amazonas (leia mais em reportagem abaixo). 

Parte do seu trabalho acontecia na fiscalização da atuação ilegal de missionários evangélicos: “Quando me perguntam quais são as principais pressões territoriais para os isolados, respondo que não são os madeireiros, os garimpeiros e os povos do entorno. São os missionários.”

Cena de "Ex-pajé" (2018), documentário de Luiz Bolognesi | Divulgação

Historicamente, não faltam casos de interferência de evangélicos fundamentalistas sobre o modo de viver dos povos indígenas, sejam eles isolados ou não. Mas o alerta em relação às investidas de missões evangélicas que têm como objetivo converter os índios ao cristianismo aumentou quando, em fevereiro deste ano, foi feita a nomeação de Ricardo Lopes Dias, ex-missionário evangélico, para coordenador na Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai. 

“Quando me perguntam quais são as principais pressões territoriais para os isolados, respondo que não são os madeireiros, os garimpeiros e os povos do entorno. São os missionários”

Ricardo Lopes atuou por 10 anos junto à Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB) no Vale do Javari, tentando converter o povo Matsés – justamente essa região abriga a maior concentração de povos isolados do mundo. Com origem nos Estados Unidos, a MNTB trabalha na evangelização de indígenas desde os anos 1950 e está ligada a epidemias que dizimaram o povo Zoé, contatado por missionários em 1982.

Quem estava à frente do órgão antes era Bruno Pereira, sertanista experiente que foi exonerado em outubro de 2019 após pressão de ruralistas ligados ao governo, mas sem nenhuma explicação formal. A demissão foi alvo de críticas de funcionários da Funai e de entidades indígenas.

O escolhido do presidente Jair Bolsonaro para presidir a Funai também foi alvo de críticas e preocupações de indigenistas, que veem um processo de esvaziamento e sucateamento do órgão, e a fragilização das políticas de proteção aos povos indígenas. O eleito foi o delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier, ligado à bancada ruralista. Em 2019, a Funai também trocou ao menos oito dos 39 coordenadores regionais do órgão, sendo que os novos funcionários são, em sua maioria, militares ou policiais. Algo inédito na história da autarquia.

Ricardo Lopes Dias, coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) | Foto: Funai/Divulgação

Contato mortal

No Brasil, os indígenas têm direito a permanecer isolados. É uma política instituída em 1987, em meio à elaboração da nova Constituição, que reconheceu uma série de outros direitos antes negados – os povos tradicionais não tinham existência jurídica autônoma, por exemplo. A estrutura pública encarregada desse assunto foi criada com o objetivo de garantir a proteção dos indígenas e das terras onde vivem, impedindo invasões. Atualmente, há o registro de 114 grupos de isolados, dos quais 28 estão confirmados – os demais estão sob investigação.

As investidas dos evangélicos em terras de isolados não são novidade, mas se intensificaram com a eleição de Bolsonaro e a escolha da pastora evangélica Damares Alves como ministra da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos. Ambos afirmaram ser a favor da revisão da política de isolamento de indígenas. 

Figura ligada ao ativismo conservador e religioso, Damares é uma espécie de baliza do bolsonarismo para pautas que insuflam os militantes, como o combate à chamada “ideologia de gênero”. A ministra também é criticada por promover um desmonte das políticas de direitos humanos no país e por atuar nas investidas de evangelização dos povos indígenas isolados e de recente contato. Damares também é fundadora da ONG Atini, investigada pelo Ministério Público Federal por tráfico e sequestro de crianças.

“A aproximação dos evangélicos aos isolados tem aumentado também pela facilidade que o governo Bolsonaro dá, ao não fiscalizar e sucatear a Funai”, afirma Eliesio da Silva Vargas, advogado indígena que é representante jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). 

Pela situação de isolamento, esses povos são muito mais vulneráveis a doenças e epidemias, e tentativas de contato colocam suas vidas em risco. Em relação à pandemia de Covid 19, por exemplo, de acordo com levantamento feito pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), até 5 de outubro havia 34.816 casos de indígenas contaminados pelo vírus, 837 mortos e 158 povos afetados.

Após o contato, alguns povos perderam 90% de sua população. É o caso dos Nambikwara, que perderam nove mil pessoas por epidemias

“O governo brasileiro está sendo conivente com isso. Não faz nada e, na medida em que a Funai segue omissa, ela está concordando com a forma que esses grupos estão tentando ‘salvar a alma’ dos índios. Mas estão condenando à morte essas pessoas porque, com o ingresso ilegal, eles vão morrer índios pecadores, nos termos deles. Não faz sentido nenhum”, indigna-se Eliesio. 

Os isolados são povos que vivem de forma autossuficiente, com recursos oferecidos pela natureza. Mas exatamente pelo isolamento são muito vulneráveis a doenças e epidemias. Contatá-los pode ser mortal. De acordo com Douglas Rodrigues, médico sanitarista especializado em saúde indígena, após o contato, alguns povos perderam 90% de sua população. É o caso dos Nambikwara. Antes do contato, eram 10 mil indivíduos. Nove mil morreram em decorrência de epidemias de sarampo, gripe, coqueluche e gonorreia. A informação consta no documento “Cercos e Resistências: Povos Indígenas Isolados no Brasil”, produzido pelo Instituto Socioambiental (Isa). 

Fontes: ISA, Ribeiro (1996), Heelas (1979), Black (1994), Hemming (1995), Rodrigues (2013), Milanez (2015) e Valente (2017).

Voos de helicóptero

Helicópteros sobrevoam o Vale do Javari. Com motores barulhentos, hélices violentas, rompem o silêncio harmônico dessa zona de florestas, local de maior concentração de índios isolados do país. Sem autorização, os missionários da Missão Novas Tribos do Brasil se valem de doações dos Estados Unidos para a investida no lugar. 

Para barrar a entrada de novos missionários e pedir a expulsão dos que já estão na terra indígena, a Univaja ingressou com uma ação civil pública na Justiça Federal em Tabatinga, no Amazonas.

A insatisfação com a nomeação de Ricardo Lopes é compartilhada por entidades indígenas como a Apib e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A preocupação é que a presença dele abra caminhos para mudanças na política de proteção aos isolados da Funai e o órgão se torne uma ferramenta de proselitismo religioso.

“É uma aberração ter um missionário na coordenação dos índios isolados, porque a função daquela coordenação é preservar a integridade física e a autonomia desses povos”, afirma Beatriz de Almeida Matos, professora de Antropologia e Etnologia Indígena no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). 

A antropóloga contextualiza que a lógica da maioria dessas igrejas é que, “se todos os povos do mundo conhecerem a palavra de Jesus, ele irá retornar”. Então, completa, “ter um missionário coordenando a política que deveria ser do não contato é mais uma perversão bolsonarista”. 

Em 9 de setembro, o indigenista Rieli Franciscato morreu quando uma flecha atingiu seu tórax. A flecha foi lançada por um grupo de índios isolados que foram vistos próximos a uma fazenda na cidade de Seringueiras, em Rondônia. Na cidade, vivem nove povos diferentes, dos quais cinco são isolados. Rieli era um dos maiores especialistas em povos indígenas do Brasil e estava seguindo o grupo avistado perto da fazenda como parte de seu trabalho para a Funai.

Tais povos são frequentemente perseguidos por madeireiros e fazendeiros. Não se sabe o motivo exato de terem atirado a flecha, e nem com quem teriam confundido Rieli. Mas a morte do indigenista gerou comoção e preocupação com entidades da área, que emitiram nota na qual afirmam que sua morte “revela ainda a urgente necessidade de implementação de medidas efetivas de proteção dessas populações e de seus territórios cada vez mais invadidos por posseiros, madeireiros, em uma das áreas mais vulneráveis no país”. Rieli era coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau da Funai e dedicou 30 anos de sua vida ao cuidado e à proteção dos povos isolados. 

“Sua morte coloca em xeque a política do não contato. Ele representava todo o arcabouço técnico para o trabalho em campo, que está sendo minado na Funai”, afirma Daniel Cangussu.

Ter um missionário coordenando a política que deveria ser do não contato é mais uma perversão bolsonarista”

O censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o percentual de indígenas evangélicos saltou de 14% para 25% entre 1991 e 2010. Uma pesquisa de 2020 do Instituto Datafolha mostra que essa fatia na população em geral já é de 32% e que, no Norte do país, os evangélicos representam 39% da população.

Os números indicam que as estratégias dos evangélicos para a região têm dado certo. O processo de evangelização vive hoje o que se chama de “terceira onda missionária”.

Rieli Franciscato no 2º Encontro Etnoambiental da Frente de Proteção Uru Eu Wau Wau | Foto: Mário Vilela/Funai.

Nova fé acarreta perda de soberania alimentar

A Igreja Católica passou quase cinco séculos dominando e catequizando indígenas. Da Patagônia aos desertos da América do Norte, passando pela Mata Atlântica, pelo Altiplano e pela Amazônia, não faltam histórias que terminaram em tragédia. 

“E quando conseguimos furar o bloqueio da Igreja Católica, quando eles pararam de fazer isso, com a fundação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), há 50 anos, começa a ter o aumento da presença dos missionários formados nos Estados Unidos e que vêm para o Brasil evangelizar. E fazem barbaridades” , lamenta-se Lúcia Helena Rangel, antropóloga e professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Ao mirar nas crenças originais, os missionários também atacam as festas religiosas e as bebidas fermentadas, feitas à base de milho, mandioca, amendoim, pois elas são, supostamente, “coisa do demônio”. As bebidas fermentadas são muito importantes para a cultura desses povos, explica a antropóloga Aparecida Villaça, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Fazem parte de rituais que são centrais para a perpetuação da cultura e da religião.” 

Não só as bebidas viram inimigas da fé. Também os rituais se tornam alvo. “E tudo vira coisa do diabo, os xamãs que lideram o ritual, os especialistas que estão comandando os rituais, as músicas são todas condenadas e chamadas coisas do demônio. Há um ataque geral à cultura, aos dispositivos, às práticas de casamento e de controle de natalidade. Atacam tudo o que não é condizente com o que eles entendem ser uma cultura cristã.”

De acordo com um funcionário da Funai que atua no Estado do Amazonas e deu entrevista na condição de anonimato, os missionários impactam fortemente a vida comunitária dos povos e os rituais. Demonizam, por exemplo, a Jurupari, um personagem mitológico dos povos indígenas, e proíbem o consumo do caxiri, bebida alcoólica feita a partir da mandioca.

Almoço na aldeia Massapê, onde vivem cerca de 200 Kanamari localizada no rio Itacoaí na Terra Indígena Vale do Javari | Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Menos coleta, mais café

Antes da chegada dos evangélicos, muitos dos povos viviam de forma seminômade, caminhando pela floresta e fazendo uso amplo de seus recursos naturais, coletando, pescando, caçando. Com a atuação dos missionários, houve uma alteração na forma como se alimentam e se relacionam com a terra, impactando a soberania alimentar desses povos, “porque a evangelização implica a sedentarização dos povos indígenas”, explica a antropóloga Adriana Maria Huber Azevedo, do CIMI. 

A sedentarização levou a transformações, já que as pessoas fixaram suas moradias em torno de uma estrutura montada pelas missões, com poço artesiano, pista de pouso. “Isso deixa a comunidade muito pouco propensa a mudar para outro lugar, caso o roçado já não renda, já não tenha tanto peixe.” 

E, ao mudar a relação com a terra, muda-se tudo. “Isso afeta a soberania alimentar desses povos, eles se tornam mais vulneráveis e dependentes do fornecimento de alimentos, inclusive de sal, açúcar, café”, conta Adriana. “E, à medida que vão conhecendo esses alimentos, vão perdendo a autonomia que tinham antes.” 

No entanto, ela sinaliza que o processo de sedentarização ocorrido com os povos indígenas não é de responsabilidade exclusiva dos missionários. Onde teve posto da Funai, por exemplo, e onde as missões católicas atuaram “esse mesmo tipo de processo aconteceu”. 

O impacto da presença evangélica sobre a prática alimentar dos povos indígenas “é dramático”, diz Daniel Cangussu, que trabalhou na Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Madeira-Purus, da Funai, entre os anos de 2010 e 2019. Antes “eles acessavam os produtos da floresta na itinerância e na mobilidade natural, e tiveram essa dinâmica quebrada. A cadeia de usos da floresta é uma coleta muito elaborada”. 

O resultado é que algumas aldeias, como a São Francisco, no povo Jamamadi, são marcadas pela fome e pela falta de recursos hídricos, pois vivenciam uma rotina muito diferente da que existiria sem a presença dos missionários, diz Cangussu. Hoje vivem em um local de chapada, onde é fácil o pouso de um avião. “A logística missionária é facilitada em detrimento de uma vida mais dinâmica para essas pessoas.”

Rachas internos e lojinhas

Uma comunidade dividida entre os que são crentes e os que não são. Os que são amigos dos missionários e os que não são. Os que ganham objetos e os que não ganham. Um dos principais prejuízos da atuação dos religiosos nas aldeias indígenas se dá na organização sociopolítica das comunidades, aponta Adriana, do CIMI. “Criam-se divisões internas, eles querem dizer quem é a liderança, moralizar o comportamento. Eles conseguem criar desigualdades econômicas, influenciar políticas e criar conflitos, interferir na organização do cotidiano.”

Também se introduz a relação com o dinheiro e o estímulo à venda do que produzem. “As aldeias que são crentes se monetarizam muito rapidamente. As relações que antes eram baseadas em troca, em relações de parentesco, passam a ser monetarizadas”, explica a antropóloga Beatriz de Almeida Matos. “Nos Marubo, fizeram uma lojinha, coisa absurda para os índios, parente vendendo coisa para outro parente.” 

Os missionários conseguem criar desigualdades econômicas, influenciar políticas e criar conflitos, interferir na organização do cotidiano”

Os jovens indígenas que saem das aldeias e vão morar na cidade também viram alvo dos missionários. “Em Atalaia do Norte, por exemplo, o pai manda um ou dois filhos para estudar na cidade e aprender a defender a família. Os jovens ficam na cidade e os missionários atacam: dão material, fazem abrigos, atividades, levam a cultos. Muitos jovens Matsés que têm entre 15 e 20 anos e moram nas cidades estão se convertendo. E acabam convertendo os pais”, relata a antropóloga. O povo Matsés vive na região de fronteira do Brasil com o Peru, na terra indígena do Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas.

Para ela, esse tipo de conversão acontece em decorrência do enfraquecimento da política pública de educação indígena diferenciada. “Quando existia investimento na qualidade da educação nas aldeias, não havia necessidade de ir para as cidades.”

A reportagem entrou em contato com Funai, Sesai, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e o ex-senador Magno Malta, e nem o pastor nem as instituições se pronunciaram até a publicação deste texto.